Certezas, incertezas, miudezas [Raul Drewnick]

Posted on 27/03/2016

7



Raul Drewnick*

Às vezes acho que seria melhor fazer artesanato que sonetos. Às vezes tenho certeza.

***

No mundo de Beckett, um risco de giz no escuro, uma fresta no cenário parecem um clarão de esperança.

***

Um pardal medita sobre sua identidade. Um prestativo gato diz que ele é um passarinho e, em troca da informação, dá-lhe a honra de ser seu almoço.

***

A gramática não desiste de ensinar a falar bem, embora todos falem mal dela.

***

Se num sofá estiver acomodado um gato, devemos, antes de nos sentar, pedir-lhe gentilmente licença, com alguma frase que comece com “vossa alteza”.

***

Tu dirás: coitado, ele era tão tolinho, tão bonzinho. Será a homenagem que me farás, tentando arrancar lágrimas desses teus olhos que há muito sabes estarem irrevogavelmente secos.

***

Eu diria que teu coração é de pedra, se tivesses um.

***

Morrer é saber fechar os olhos na hora certa, ensina o manual. É desejável, também, um pouco de sorte.

***

Se incapacitado de exercer as artes do amor, o homem definha dolorosamente, como aquelas árvores sobre as quais, nos últimos dias, já nenhum pássaro pousa.

***

Tinha a agenda amorosa sempre lotada, mas nunca se recusava a fazer um encaixe.

***

Por capricho ou zombaria dos antônimos, a mulher de nossa vida pode ser a mulher de nossa morte.

***

Que nos traiam as mulheres e os homens nos humilhem, mas que a arte nos acolha sempre em seus braços de mãe generosa.

***

Uma quadrinha mirrada e pronto – eis o poeta impado como uma empada.

***

Foram os poetas de braços finos e rosto enrugado que espalharam a balela segundo a qual às mulheres agradam mais os versos primorosos do que os homens musculosos.

***

A única obrigação que a arte tem com a vida é a de citá-la como fonte, quando for necessário.

***

Para cada dois dedos de prosa, Mario Quintana vinha com duas mãos de poesia.

***

Meu maior feito eu o devo menos à literatura que à biblioteconomia. Na estante Drewnick é vizinho de Drummond e Dostoiévski.

__________

Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas