Minúsculos assassinatos [Mariana Ianelli]

Posted on 26/03/2016

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Mariana Ianelli*

Quantas vezes por dia temos sido predadores sem nem mesmo a pena de uma consciência culpada? Mesmo sem dolo, mesmo sem maldade. Assassinos de minúsculos assassinatos. É uma carreira de formigas esmagada num único passo. É uma samambaia, uma acácia-branca, uma roseira, todas ressequidas na varanda por descaso. Abelhas e joaninhas indo junto no extermínio de um surto de baratas e outras pragas. Todo um universo de seres delicados que matamos por distração, menosprezo, aspereza, asco. Essas vidas tão escandalosamente irrelevantes diante de bois, cordeiros, galinhas e patos que ao menos uma vez nos acusam com seu choro antes de serem passados à faca. Esses cujas vísceras não ganham selo de qualidade nem a justificativa civilizada de ocuparem na cadeia alimentar o lugar das nossas caças. Vítimas acidentais por terem cruzado nosso caminho, por não sentirem medo de pousar ao nosso lado, por terem dependido que lhes déssemos um pouco de espaço, um pouco de calor ou um pouco d’água. Esses que, para vingar, não exigiriam de nós trabalho algum, que não demandariam outro empenho além de um dedo de recíproca invisibilidade, um minuto de insignificância nossa, de modéstia dentro daquela mesma cadeia que nos tem como alimento de uma fera sem nome e tão maior. Esses afinal tão próximos, emparelhados conosco em tamanho e importância numa escala outra, inusual, esses de vidas translúcidas como as palavras simples, que se quebram em silêncio, todos os dias, por insensibilidade nossa.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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