A experiência de Cristóvão Tezza com a crônica

Posted on 23/03/2016

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Vez ou outra um jornal resolve ceder um espaço em suas páginas para que um escritor local escreva crônicas, ainda que ele não tenha nenhuma experiência com o gênero. Foi este o caso de Cristóvão Tezza, que, ainda na esteira do sucesso do romance “O Filho Eterno”, foi convidado em 2008 para assinar uma crônica semanal na Gazeta do Povo, o jornal de maior circulação em Curitiba. Depois de alguma hesitação, já que realmente nunca havia escrito uma crônica, Tezza aceitou o convite, animado pela possibilidade de alcançar uma maior visibilidade. Assim, teve que aprender sobre a crônica na prática, e se entregou a esse exercício por seis anos, até o final de 2014. De todas as 335 crônicas que fez, é possível encontrar uma amostra nos livros “Um operário em férias” (Record, 2013) e, mais recentemente, “A máquina de caminhar” (Record, 2016). Neste último também há um ensaio em que Tezza fala sobre a crônica e, a partir do seu aprendizado, esboça algumas características gerais que favorecem a criação de uma teoria a seu respeito.

Destaca-se, nas considerações de Tezza, a importância que atribui ao jornal na feitura da crônica. Longe de se acomodar na clássica definição do gênero como um “híbrido” do jornalismo com a literatura, o escritor prefere considerar a crônica como um subproduto ou um subgênero (sem juízo de valor) do jornalismo. Para ele, a crônica é “jornalismo desgarrado”, que se liberta da amarra pragmática do puro jornalismo para se apropriar das marcas e do repertório das linguagens literárias, prosaicas e poéticas. O gênero seria quase uma “representação” da literatura, amostra de seus recursos, que brilham aqui e ali, num cruzamento de intenções e linguagens. Ao avaliar uma crônica de Machado de Assis, Tezza consegue observar que ela “não é literatura em sua inteira liberdade”.

“O escritor prefere considerar a crônica como um subproduto ou um subgênero (sem juízo de valor) do jornalismo”.

Sendo um homem da literatura, que nunca passou pela redação de um jornal – serviço militar obrigatório do cronista, como ele diz –, Tezza notou a mudança de perspectiva a que estava sujeito na crônica: de repente, era sempre ele que respondia pela opinião do texto, e não mais um personagem. Porque a crônica é basicamente um texto de opinião, e todos os teóricos do jornalismo a incluem entre os seus gêneros opinativos. Só que a opinião na crônica difere daquela do artigo ou do editorial: “tem um toque carnavalesco, indireto, humorístico, essencialmente cordial”. Ao dar uma opinião, o cronista não quer criar caso nem ofender – é como se não gostasse de opinar, mas se visse obrigado a isso, pois o comentário da vida cotidiana está no seu DNA. E ainda por cima tem o leitor.

Ah, o leitor, o fantasma do leitor! Foi ele quem deu o primeiro susto em Tezza quando sentou para escrever a primeira crônica. Sua presença era real, de uma maneira que não havia encontrado na literatura. Tezza reconheceu, com a prática, uma “etiqueta” típica do cronista, dos temas às formas, um código de civilidade e boas maneiras com o leitor. Não podia, por exemplo, escrever palavrões, ou descrever um ato sexual. É interessante a conclusão que tirou a esse respeito: o leitor da crônica não é apenas um pressuposto do texto, mas um personagem mesmo, “parte integrante e inseparável da crônica”. Como cronista, cabia a ele entendê-lo e domesticá-lo – era a pressão que sentia ao escrever.

Também chama atenção a observação de Tezza de que o “tom” da crônica seria capaz de contaminar outros gêneros, mais específicos e direcionados, do jornalismo, como as colunas de comentário político, econômico ou cultural – chamados por ele de “primos da crônica”, mas que não se confundem com ela. De fato, essa espécie de camaradagem atribuída à crônica é recurso de outros gêneros do jornal para atrair a simpatia popular. No entanto, também é verdade que os outros gêneros do jornal influenciam a crônica – com frequência, o cronista de hoje é apenas um articulista mais descompromissado.

“É interessante a conclusão que tirou a esse respeito: o leitor da crônica não é apenas um pressuposto do texto, mas um personagem mesmo”.

A natureza da crônica não apenas admite a absorção de outros gêneros, mas praticamente a exige, pois é dela que se constitui. O próprio Tezza reconheceu que a ficção, a filosofia, a poesia, o ensaio, a história, a biografia não são estranhos à crônica, embora também não se confundam com ela. No fundo, a crônica é mesmo um espaço a ser preenchido, obedecendo a determinadas características de linguagem herdadas do jornalismo.

Não há atributos fixos, sobretudo depois da Internet, que de um só golpe derrubou a necessidade de um veículo impresso e a sua rígida limitação de caracteres –  apesar de a crônica muito longa geralmente sair perdendo. A própria unidade de tema e estrutura não é um critério obrigatório – Paulo Mendes Campos fez várias crônicas preenchidas com assuntos estranhos entre si. Esses seriam, para Tezza, casos fora da curva, clássicas exceções, e a princípio são mesmo, mas que também precisam ser considerados se um dia quisermos elaborar uma grande teoria da crônica. O escritor sugere como o ponto central do gênero o tom de “conversa fiada”, não negando a existência de crônicas mais sérias e sisudas, que vê de forma negativa. E faz sentido, se pensarmos que o papel que a crônica geralmente ocupa dentro do espaço do jornal é o de negar a sua retórica tradicional.

Curiosamente, o próprio Tezza escreveu crônicas que se aproximam do artigo ou do editorial, como revela a leitura do seu novo livro. Há mesmo um certo tom professoral em algumas delas, a ponto de colocar entre parênteses, por exemplo, os anos em que nasceram e morreram Balzac e Dostoievski. Tezza escrevia bastante sobre suas leituras, às vezes presumindo que o leitor não estava habituado ao tema, e em outras parecendo supor que o assunto lhe interessasse de maneira especial. Também são bem frequentes as crônicas com opiniões diretas, sobretudo relacionadas à situação do país, nas quais Tezza parece ter elevado o tom mais do que ele mesmo acredita o ideal para a crônica.

“O próprio Tezza escreveu crônicas que se aproximam do artigo ou do editorial, como revela a leitura do seu novo livro”.

Quando recebeu o convite para se tornar cronista, Tezza cogitou uns temas iniciais para as primeiras semanas, e se lembrou de que relatos da infância vinham a calhar com o gênero. Mas esse tipo de crônica, beirando a nostalgia, não está presente neste livro, e uma análise empírica sugere que foram justamente os temas atuais, presentes no noticiário, que renderam a maior parte dos seus temas. E, na leitura, quase não se enxerga Tezza em seus momentos de intimidade – apesar das suas viagens, apesar do lagarto em sua casa de praia. A impressão que se tem, pelo recorte deste livro, é que Tezza não se expôs tanto quanto seria possível na sua experiência com a crônica.

O curioso é que o seu primeiro livro deixou impressão diversa, pois, embora também discutisse assuntos relacionados ao país e ao universo da leitura, é possível encontrar o cronista em muitos momentos cotidianos que renderam episódios e observações bem humoradas, várias delas relacionadas à sua vida pessoal. No novo livro esses momentos são  raros, e o que se privilegia são temas densos e áridos, nada estranhos ao restante do jornal que os divulgou. Embora Tezza tenha pegado vários dos cacoetes de cronista (entre eles o de destacar o número reduzido de seus leitores), eles não funcionam tão bem quando ele se propõe a discutir seriamente um assunto.

De toda forma, a experiência de Tezza com a crônica se mostra interessante, até mesmo digna de estudos mais detalhados, pelo inusitado de um escritor reconhecido por sua obra de ficção precisar aprender na prática um gênero criado em jornal. E em relação às conclusões que chegou e às observações que fez em seu ensaio, pode-se dizer que está até bem à frente de muitos críticos literários, que ainda consideram o jornal como mero empecilho para a realização da crônica. Sua contribuição, portanto, é válida e muito bem-vinda.

Henrique Fendrich

maquinadecaminhar

A máquina de caminhar – Cristóvão Tezza

Record, 192 p., R$ 37,90 

 

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