Uma ilha [Elyandria Silva]

Posted on 22/03/2016

1



Histórias impossíveis geralmente começam na infância, se constroem com verbos e adjetivos intensos e se revestem de inúmeras possibilidades reais à medida que o tempo passa. Um dia uma, duas ou talvez todas as histórias perdem a importância, mas merecem ser lembradas. Outras ganham significados além do caminho visível, se transformam em fotografias e alugam pequenos espaços em álbuns antigos para sobreviverem.

O mar nos parecia algo tão encantado e desconhecido para nossa inocência quanto Despina, cidade que Marco Polo descreve para Kublai Khan – em Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino – como um lugar que se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar. Queríamos chegar por terra, por isso a água era sonhada em formas variadas durante as férias escolares para espantar o calor de dias vermelho escarlate. O calor tinha cor, de tons muito diferentes dos que existem hoje, cores que foram inventadas para verões especiais. Nosso sonho aquático era uma piscina e enquanto ela não vinha cada um fazia chover em si para fugir do calor. Conseguia produzir grandes tempestades, o que me causava grande exaustão depois.

Certo dia nos contaram histórias do mar, com suas cores, tamanho, cheiros, nos falaram de sua existência, por inteiro. Não tinha foto, imagem, nada, só as palavras que o desenhava com imensidão quase real. Até que, mais tarde, quando o inverno passou, as tais palavras cederam lugar para a imagem em preto e branco de uma televisão grande que foi colocada na sala. Realmente, o mar era muito bonito. E as histórias começaram a ganhar vida e deixaram de ser impossíveis.

Foi um convite, parentes distantes de minha mãe. O mar era real e estava diante de nossos olhos. Um dia perfeito, como muitos na praia, com gritos, brincadeiras, picolé, guarda sol, areia quente e o azul debaixo e de cima. Lembro que meu pai contava, depois, que só entrei, sorridente, mas não saí. Desapareci em meio a tanta água, um pouco além das ondas. A criança pensou que tanta coisa bonita não poderia fazer mal nenhum, que poderia se jogar com tudo e nada aconteceria. Resgatada pelos cabelos, afogada, o mar perdeu um pouco do encanto para dar lugar ao medo. Nos anos seguintes sabia do mar por uma amiga que todo ano passava as férias na praia, mas que nunca me convidava, apenas vinha contar um pouquinho de tudo.

O sonho aquático das crianças foi realizado num Natal. Uma grande e bela piscina de plástico foi instalada no jardim. Era bem rasa, toda azul com ondas num tom de azul mais escuro. Éramos responsáveis por mantê-la limpa e por não gritar tanto a ponto de incomodar a vizinhança. As competições de mergulho geravam brigas e guerrinhas infantis. Os verões nunca mais foram os mesmos, o mar já não fazia tanta falta e a vida era de total felicidade nas férias.

São histórias que não podem ser esquecidas, por isso quis escrevê-las aqui. Depois de tanto tempo o mar virou inferno. Muita gente, muito calor, muita cadeira para pouca areia. Hoje meu sonho aquático é ter uma ilha para chamar de minha onde pudesse passar as férias sem ser incomodada por nada. Quem dera ter uma Ilha e, num surto de narcisismo, chamá-la de A Ilha de Elyandria. Quem dera esse desejo, um dia, se transformasse em realidade e também deixasse de ser mais uma história impossível.

_________

Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

Anúncios
Posted in: Crônicas