O amor é idiota [Daniel Russell Ribas]

Posted on 21/03/2016

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Daniel Russell Ribas*

“Desacreditada pela opinião moderna, a sentimentalidade do amor deve ser assumida pelo sujeito apaixonado como uma forte transgressão, que o deixa sozinho e exposto; por uma inversão de valores, é pois essa sentimentalidade que faz hoje o obsceno do amor.” – Rolando Barthes (“Fragmentos de um discurso amoroso”)

“Anything that matters doesn’t makes us any better but it’s all for love” – Night Panther (“All for love”)

No jogo das verdades desagradáveis da vida, uma afirmação sincera e feia sobre o amor é de que se trata de um sentimento idiota. Isto mesmo. O amor é idiota. Após o choque inicial, conclui-se que o amor, por isso, deve ser ruim. E o mais surpreendente é que não. O amor é idiota, mas não é ruim. Justamente por ser idiota, o amor surpreende. Pois o amor não reconhece inteligência, sentido ou interesse. Como um idiota, ele apenas reage. Daí sua capacidade de espantar aqueles que se guiam pela racionalidade. Porque o surpreendente surge, é espontâneo. É. Não à toa que existe a expressão “O amor acontece” e “O amor acaba”, este título de uma famosa crônica de Paulo Mendes Campos. Amor acontece e acaba. Acontece. Acaba. Simples assim. Bem idiota.

O amor é idiota, como o bobo que trouxe a taça para o rei na história “O Rei Pescador”, se lembram? Caso contrário, é sobre um rei que despachou todos seus cavaleiros em busca do Santo Graal. O tempo passou, e nada foi encontrado. O rei envelheceu e, dominado por remorso e amargura, adoeceu. Um dia, enquanto o rei se encontrava sozinho, um bobo da corte entrou no recinto. O bobo vê o rei, mas não o reconhece. Apenas enxerga um velho fragilizado, encolhido e solitário em seu trono. Comovido com seu estado, pergunta se há algo que possa fazer por ele. O rei responde que estava com sede. O bobo se retira e volta em seguida com água. Ao beber, o rei nota que a taça que segurava era o Santo Graal; finalmente em suas mãos após tantos anos. O rei se aproxima do bobo e pergunta onde ele encontrara a taça. O bobo, então, com sinceridade e sem entender o valor que o rei dava àquele objeto, disse: “Eu não sei. Tudo o que vi foi um homem com sede.”

O que é necessário esclarecer que o idiota não é burro, especificamente. O idiota é aquele que ignora o que está à sua frente. O idiota vive em outro mundo, um lugar próprio e de difícil acesso, em que as necessidades são diretas e urgentes. Não há planos a prazos de duração variada ou subterfúgios de qualquer espécie. Ele simples “é”, abre novos mundos sem querer. Sua chave não é o intelecto, mas o coração. O coração é a chave para as descobertas, como a bondade despretensiosa de um ser considerado sem valor perante seus pares. O coração, mais do que a habilidade, foi o que trouxe ao Rei Pescador sua recompensa final.

Se a bondade é a chave, a passagem é a paixão. Através dela, nos deixamos levar por esta correnteza invisível, traiçoeira às vezes, mas estranhamente acolhedora. Se fôssemos espertos, evitaríamos esta passagem. Pois, embora os fatos e as datas sejam diferentes, sabemos que ela trará dor, raiva, tristeza e nossa confissão assinada de que não podemos viver sozinhos. De que não somos senhores absolutos de nosso destino. De entregar-se a outro não é opcional, mas um aspecto da vida a que podemos até nos fechar, mas jamais ignorar.

Porque quem já esteve nesta passagem, que é a paixão, sabe que se machucar é inevitável. E sabemos disso porque todos nós já estivemos, em algum momento, nesta passagem. E nunca realmente saímos de lá. Como bons idiotas que somos, optamos por ficar. E, como sábios, sabemos que de lá não devemos sair. Não queremos. Porque o amor nos traz uma felicidade e uma força imensuráveis pelas ciências.

O amor abre novos mundos, cuja função é revelar o que estava dentro de nós, mas esquecido ou ignorado. O amor nos surpreende por constatarmos que somos melhores do que pensávamos. Porque alguém nos viu assim, e reparamos em nós mesmos. Alguém nos ama, e damos e recebemos desse jeito. Um ao outro.

O amor é idiota, porque se recusa a reconhecer a razão. E idiota não é aquele que se recusa a amar, este é incapaz. O idiota é capaz, assim como o amor, mas conhece seu potencial ao sê-lo. O incapaz; bom, a palavra já diz tudo. Pois é melhor girar a chave e se deixar levar pela corrente descontrolada da passagem do que nunca se sentir vivo outra vez. O amor acontece e acaba. Acontece. Acaba. A sabedoria final não reside no conhecimento. É apenas no ser. E, por mais desagradável que seja em certas ocasiões, amar é “Ser” em estado bruto. A passagem para estes novos mundos que carregamos. Com toda sinceridade.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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