Crônicas entre céu e mar

Posted on 21/03/2016

1



Mariana Ianelli*

Um título à parte na reedição da obra de Cecília Meireles pela Global Editora, “Diário de Bordo” leva o nome do relato de viagem com o qual a poeta intitulou suas crônicas a bordo do navio Cuyabá rumo a Lisboa, agora publicadas num verdadeiro livro de arte, com desenhos e pinturas do luso-brasileiro Fernando Correia Dias, marido de Cecília e seu ilustrador em colaborações para diversos jornais e revistas literárias. São 22 crônicas, de 21 de setembro a 12 de outubro de 1934, entremeadas pelo relato pictórico do artista, numa sintonia de espírito que ocupou a coluna “Crônicas Semanais” do Suplemento Literário do jornal carioca “A Nação”.

O livro traz uma breve introdução de Alexandre C. Teixeira, neto de Cecília, contextualizando a importância de Correia Dias, como artista polivalente que era, em suas inúmeras contribuições para as artes gráficas no Brasil. [1]O volume conta ainda com uma apresentação de Alberto da Costa e Silva e textos mais alentados (prefácio e posfácio) assinados por Jussara Pimenta, que possui tese de doutorado com o tema da “integração entre dois povos na viagem de Cecília Meireles a Portugal”, um acrescento ao livro que permite ver melhor o alcance das preocupações de Cecília com as questões de educação, literatura e folclore que motivaram sua viagem a Portugal e foram matéria de conferências e entrevistas durante sua estada no país até o início de 1935.

Desde a partida do Cuyabá, do cais Pharoux no Rio de Janeiro, no dia 21 de setembro, até o último porto brasileiro em que o navio atraca, em 27 de setembro, tem-se um primeiro conjunto de crônicas ainda preso a assuntos terrestres, chamando o leitor a vagar com Cecília pela cidade de Vitória, à época ainda “nascente”, mas de “crescimento sensível”, pelas ruas da Bahia, onde a autora sente o ar da Tijuca, ou num passeio noturno por Recife, onde tudo lhe parece ter “um ar pesado, antigo e alto”. Entre terra e mar, o que prevalece nessas crônicas são visitas a colegas jornalistas em redações de jornal, pequenas incursões por correios e papelarias, encontros com velhos ou novos amigos e impressões sobre as cidades, onde a situação de efervescência política do momento aparece como pano de fundo.

12873478_814621795316344_429804546_oIlustração de Fernando Correia Dias

Em 28 de setembro, pouco antes de o navio começar a se mover, afastando-se do Brasil com a cabine de Cecília perfumada de abacaxis pernambucanos, a palavra da poeta pesca, num elogio, a imagem dos estivadores de torso nu trabalhando de madrugada:

Torsos negros e bronzeados dos estivadores de Recife, indo e vindo, curvando-se e reerguendo-se entre baldes e pás nas chatas onde o carvão brilha que nem diamante negro – nunca sabereis que fostes, um momento, na vossa vida, o imenso deslumbramento de uns olhos silenciosos, perdidos a contemplar-vos do alto de um tombadilho! Não sabereis que fostes, na vossa humildade, uma obra de arte completa, de linha, de volume, de movimento e de cor, junto às águas oleosas, moles e azeitonadas nas proximidades do navio, – e logo diluindo-se em transparências azuis e em verde veronese sob a leveza dos pequenos barcos de velas redondas e claras!

A partir dessa despedida dos portos em direção ao mar alto, como bem vê Jussara Pimenta, a poeta Cecília assume o comando do “Diário de Bordo” no lugar da educadora, cujas inquietações até então se mesclavam à realidade política e cultural das cidades de escala do Cuyabá. Apesar dessa mudança de comando, é certo que em terra já estava começada a viagem marítima de Cecília, “como uma aventura do espírito”, de maneira que impressões das águas e dos céus invadem as descrições da costa brasileira, assim como as notícias do mundo continuam presentes no cotidiano dos passageiros a bordo.

“O som constante do mar, o rumor frívolo das conversas, mesmo o balanço do barco predispõem a um geral desprendimento de tudo, ao abandono à corrente da vida esparsa, à despersonalização e ao silêncio”: é nesse estado de contemplação, suspensa entre céu e mar, que Cecília vai deixando em suas crônicas o rastro cambiante das águas e das nuvens em diferentes matizes e formas, conforme a hora do dia ou da noite, conforme a força dos ventos, pequenas pinturas literárias em que “ a vida universal e a humana se refletem”, como nos firmamentos de Eugène Boudin ou de Hercule Florence.

” É nesse estado de contemplação, suspensa entre céu e mar, que Cecília vai deixando em suas crônicas o rastro cambiante das águas e das nuvens em diferentes matizes e formas”.

Par a par com os acontecimentos marítimos da viagem, com o espetáculo de chispas dos peixes-voadores que saltam da água ou a vista das ilhas de Maio, Boa Vista e “Fuerte Ventura”, a autora narra as mundanidades do Cuyabá, “vícios da terra [que] tentam corromper a solidão virtuosa do mar”: os banhos de piscina na proa, o batismo à passagem da linha do Equador, as músicas da orquestra, os bailes no tombadilho, as apostas de pôquer no bar.

Pouco a pouco Cecília vai familiarizando o leitor com os passageiros feitos personagens: o amigo Wolkoviski, a bela açoriana Amélia Borges Rodrigues, o almirante solteirão que introduz a poeta em lições de mecânica celeste, ensinando-a a manejar o sextante, ou os passageiros de terceira classe, junto à carga de cacau na popa do navio, que comovem a autora pelo “malogro da esperança” dos repatriados, “vencidos de preguiça, estendidos em cadeiras de lona ou sentados por onde podem, procurando brincar ainda, sob o imenso calor, com cantigas ao desafio, música de gaita, e alguma gargalhada rústica rematando o gracejo sussurrado”.

O amor de Cecília pelas águas e pelos ventos espelha sua condição de poeta: “é quando se está justamente dentro da vida e à beira da morte”. Tudo o que a viagem lhe inspira, não faltando às crônicas desse “Diário de Bordo”, pode ser largamente reconhecido em sua poesia: o sentimento de renúncia e de saudade, o olhar contemplativo, o elo com as próprias origens na lembrança dos avós navegadores, o deslizar por uma superfície líquida intuindo mundos em profundidade, o sonho de descobrimento de terras misteriosas. A isso somado o sentimento de que a vida humana é afinal tão minúscula, tão efêmera: mirando-se na carta de bordo, a poeta descobre que avançar milhas sobre o mar é cumprir milímetros no mapa.

“Tudo o que a viagem lhe inspira, não faltando às crônicas desse “Diário de Bordo”, pode ser largamente reconhecido em sua poesia”.

O trabalho de Correia Dias em seu cavalete improvisado com uma das cadeiras do convés também aparece registrado dia a dia. Sua produção é intensa: em apenas seis dias de viagem, o artista já havia pintado entre dez e doze quadros, além de aproveitar como suporte tabuinhas de caixa de charuto. Nada escapa ao seu olhar cúmplice da cronista: manchas a óleo dos crepúsculos no mar, as variações de cor no horizonte, o perfil das mulheres debruçadas na amurada do navio, retratos de Cecília, do amigo Wolkoviski, do comandante Henrique Santos, e até mesmo a visão noturna do Carlyle, materializando em imagem as palavras de Cecília: “navio de guerra, que passa todo iluminado, destacando-se da noite negra, como um barco de ouro enfeitado de estrelas”. Poeta e artista mostram-se a bordo de uma mesma viagem do espírito, por exemplo, quando à altura do arquipélago de Cabo Verde, Correia Dias, sonhador, escreve uma mensagem na garrafa, atirando-a da torre de comando, no ponto mais favorável da correnteza, para o poeta Augusto Casemiro, que está exilado numa das ilhas do arquipélago.

A despedida do mar, antes da terra à vista, vem através das vozes da Europa que chegam à cabine do comandante pela radiotelefonia – vozes francesas, inglesas, espanholas, portuguesas: “Milagre do século: poder sentir-se a palpitação de cada povo no nervo da antena”. Cecília tem pena de chegar, mas, “amiga do vento”, vai aonde é levada sem olhar para trás. Em 12 de outubro de 1934, às três da manhã já está de pé, sentindo o navio se aproximar lentamente dos outros barcos, no cais de Alcântara. Abre-se aí um novo tempo de viagem, um novo ritmo, e a poeta não o contraria: tudo contenta seu coração, “que nunca se perde, porque nunca entrega, a nada que ama, o seu amor”.

[1] O leitor interessado também pode esmiuçar esse contexto pesquisando em outro grande livro: “Fernando Correia Dias, um Poeta do Traço” (Ed. Batel, 2013), de Osvaldo Macedo de Sousa, que explora a intensa parceria entre Cecília e Fernando nos anos de 1920 e 1930, com um capítulo especialmente dedicado à viagem do casal às terras portuguesas e seu protagonismo no intercâmbio cultural e convívio com artistas e escritores da época.

12675037_814625388649318_1076332847_o (1)

Cecília Meireles – Diário de Bordo

Editora Global, 192 páginas

__________

Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

Anúncios
Posted in: Resenhas