Feijoada completa [Rubem Penz]

Posted on 18/03/2016

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Rubem Penz*

Nesta época, na qual todos parecem ter um só assunto e que em toda manifestação, por mais moderada que seja, termina-se ferindo suscetibilidades, resolvi escapar das patrulhas. Resgatei a antiga estratégia das receitas culinárias – típicas dos momentos de censura – e, para esta crônica, vamos cultivar a boa mesa.

Nas linhas que seguem, o preparo de uma feijoada completa:

Em primeiro lugar, vamos reunir os ingredientes: 200g de costela de porco salgada, 200g de rabo de porco salgado, 200g de pé de porco salgado, 200g de orelha de porco salgada, 250g de lombo de porco salgado, 200g de toucinho cortado em cubinhos, 400g de banha de porco…

[Desculpa a interrupção, Sr. Cronista, mas recebemos uma mensagem indicando ser monstruoso o esquartejamento subliminar contido no agrupamento de pedaços de indefesos suínos. Alguns leitores mais sensíveis já estão vomitando no banheiro]

Bom, descartados os pedaços salgados de porco, resta-nos utilizar 350g de carne seca, 200g de carne de peito bovino, 250g de língua defumada…

[Por favor, Sr. Cronista, talvez precisemos ser mais claros: tudo o que vale para suínos, por extensão, valerá para bovinos também. E, língua? O Sr. ficou louco? Agora, eu mesmo estou enjoado]

Ok. Sem drama, sem drama. Vamos ficar com 250g de paio e 250g de linguiça calabresa cortada em moedas médias…

[Recebemos um alerta de metáfora sexual-escatológica, Sr. Cronista. Nada de embutidos com formatos facilmente aludidos em piadas picantes (ops. esse trocadilho saiu sem querer). Descarte imediatamente estes ingredientes, por favor]

Ahhhhh! Seguindo, teremos uma feijoada bastante incompleta, mas ideal para vegetarianos: um maço de coentro, cinco folhas de louro, um maço de cebolinha, quatro dentes de alho picados, uma cebola média picada, ¼ de xícara de azeite, ½ xícara de cachaça…

[Não é implicância, Sr. Cronista, mas a coisa no texto vai mal… Sua feijoada está se tornando inviável para o paladar infantil. As crianças cada vez implicam mais com hortaliças, tubérculos e outros vegetais. As mamães estão me perguntando se não tem miojo na receita. E, cachaça? Isso se transformará em caso de polícia!]

Meu Deus, assim está difícil… Caríssimo moderador, e o feijão? Feijão, pode?

[Depende… É preto?]

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Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro o Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas