Molar [Daniel Cariello]

Posted on 17/03/2016

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Daniel Cariello*

Encontraram-se no Posto 9, apresentados por amigos, na fila do sanduíche. Ela, Leblon, Rio de Janeiro. Ele, La Boca, Buenos Aires. Soraya. Rodrigo. Roqueira. Rockero. Ama futebol. Ama el fútbol. 23 anos. También. Meu Deus! Dios mío!

– O meu é de carne. – Ela disse ao atendende – Capricha no chimichurri.
– São dois! – Ele falou em um português quase perfeito, esforçando-se para agradar, apesar de não comer carne vermelha há quase um ano.

Ela perguntou se ele queria uma cerveja, pra acompanhar. Ele não queria. Ela também não queria mais. Ele queria um mate. Ela pediu um com limão. Ele a corrigiu de maneira delicada, para não constrangê-la, dizendo que mate para ele era chimarrão. Ela não suportava chimarrão, ainda mais nesse calor, mas achou uma boa ideia voltar para a barraca e tomar um com ele.

– Tem um copo pra mim? – Ela perguntou.
– Não é copo, é cuja.
– Cuja?
– Sim, aquele recipiente, cuja.
– Ah, cuia.
– Isso. Cuja.

Ele explicou que o legal do chimarrão era compartilhar a cuia, preparou a erva, completou com água fervendo e passou pra ela. Ela puxou com força, queimou a boca, deixou cair a cuia e cuspiu na cara dele. Ele limpou. Ela ficou sem graça e pediu desculpas. Ele aceitou sorrindo e revelou um molar de ouro. Ela achou esquisito. Ele manteve o sorriso e o sol bateu no molar e refletiu no olho dela. Ela foi tapar o olho com a mão cheia de areia e piorou a situação. Ele pegou uma garrafa de água e jogou no rosto dela, mas a garrafa tinha o xixi do filho de 2 anos do Robério, que aprendera com o pai que não podia sujar a praia, então só fazia em garrafa de plástico. Ela disse que estava queimando. Ele a puxou pelo braço. Ambos entraram na água gelada e se abraçaram, instintivamente, até bater uma onda e dar um caldo nos dois. Ela se levantou primeiro e o puxou pela mão, de volta à barraca. Ele preparou outro chimarrão.

– Tenga cuidado dessa vez.
– Terei.

Ela teve cuidado com o mate quente, mas não com o ritual da bebida, e pegou na bomba para dar uma mexidinha. Ele ficou horrorizado e deu um tapa na mão dela, instintivamente. Ela quis saber o que era aquilo. Ele tentou disfarçar e disse que havia um mosquito do Zico. Ela corrigiu, era Zika. Ele disse Zico e Zika eram duas pragas. Ela afirmou praga era o Messi, que parecia uma pulga. Ele provocou aquela pulga sempre fazia o Brasil se coçar. Ela recordou a Argentina não era campeã havia 30 anos, desde a época do Maradona. Ele decretou Maradona era melhor que Pelé. Ela se levantou e jogou o chimarrão quente no pé dele, pois aguentava muita coisa, mas isso já era demais.

No caminho de casa, pensou que devia ter ido embora quando viu o molar de ouro. Aquilo, sim, era muito estranho.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas