Começar de novo? [Guilherme Tauil]

Posted on 15/03/2016

5



(Imagem: Bernardo Ceccantini)  

Guilherme Tauil*

Nada me é mais entediante do que a ideia de reencarnar. Foi a preguiça, e não a descrença, que me afastou dos altares e dos livros sagrados. Como se a falta de conhecimento do assunto me livrasse da obrigação de, lá adiante, depois de subir ou descer onde a vista não alcança, eventualmente ter de retornar ao mundo terreno.

Não me entenda mal. A reencarnação é uma ótima ideia para quem vive desmarcando compromissos, sempre adiando para uma próxima. É a solução metafísica para quem diz “cinco minutinhos” sabendo que vai levar meia hora. Mas para os mais pragmáticos como eu, não rola. Uma outra vida não cabe no meu planejamento semanal. Se assim tiver de ser, paciência. Mas se o destino for mesmo apenas me desfazer, minha consciência se esfacelará tranquila, tranquila. Cantarolando Dorival Caymmi.

Meu maior problema com a “reencadernação”, como diz uma amiga, seria ter de aprender tudo de novo. Que angústia pensar que recomeçarei sem nada na cabeça. Recomeçar do zero, sem a mais difusa pista de nada do que sei. Os conhecimentos específicos – números irracionais, aplicação de leis, cadeia alimentar, escansão de versos – a gente estuda de volta. Leva tempo, mas tudo bem. A dureza é o saber banal, aquele do qual nem nos damos conta que faz parte de nós.

Reaprender, por exemplo, o que quer dizer amarelo. O que é áspero. Nuvem. Boné. Plástico. Inhame. Todas as combinações possíveis de números. Os estados da água. O conceito de cafona. Cor de burro quando foge. Aprender o que dá medo. A ler o céu. Compreender o carnaval. Dar laço no cadarço. Aprender de novo todas as melodias do Tom Jobim. Me dar conta de que a Nona Sinfonia de Beethoven não é só aquele trechinho. Ler a obra de Shakespeare, as crônicas de Rubem Braga, aprender as mais de cem palavras que o homem criou para o diabo.

Até gostaria de lembrar o que é ouvir a sanfona de Dominguinhos pela primeira vez, e também de saber se reagiria com indiferença ou curiosidade ao fato de que o homem atravessou o estreito de Bering. Queria saber que cara fiz quando descobri que a banana, na verdade, não é fruta. Mas só de pensar em reaprender a conjugação dos verbos em “vós” e o nome de todos os 150 Pokémon já quero permanecer enterrado. É preciso muito conhecimento acumulado para se fritar um ovo sem achar nada estranho.

Retornar do mundo dos mortos só teria graça se fosse como fui em vida. Correto: assombração. É a diversão que merecem as almas que cumpriram sua jornada. Isso, sim, consigo encaixar na agenda. Se morrer amanhã, estarei com as terças livres.

__________

* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças. 

Anúncios
Posted in: Crônicas