Arte na praia [Madô Martins]

Posted on 11/03/2016

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 Madô Martins*

Cidades litorâneas costumam instalar acessórios nas praias, como se a natureza deles precisasse para tornar-se atraente. Assim, na minha, durante a temporada de verão,  grandes tendas são montadas à beira-mar para a realização de bailes, shows musicais, atividades físicas, projeção de filmes… Tudo com som e luz artificiais que não se comparam ao pôr do sol e ao sussurro das ondas, mas isto é outra história.

Agora as férias terminaram e, aos poucos, tudo volta ao normal. Das tendas restam apenas os esqueletos metálicos, que logo desaparecerão sem deixar rastros. Há poucos domingos, porém, surgiu na areia uma novidade que os turistas não verão: desenhos artísticos de grandes dimensões traçados pelo rastelo de um dos garis que trabalham na limpeza das praias, completando a varredura feita por máquinas.

São obras de arte efêmeras, logo desfeitas pelas pegadas dos distraídos. Notei a primeira, ao atravessar uma das pontes sobre os canais (na maré baixa, a preferência local é seguir pelo mar, mas na alta, essas passarelas são de grande utilidade). Traços simétricos, perfeitamente alinhados, formando uma rosácea ou mandala, ao gosto do espectador. Cada linha desenhada na largura do gadanho, fazendo lembrar antigos bordados.

Mais adiante, outra criação, ainda mais elaborada. Círculos de vários tamanhos sugerindo uma obra abstrata. E, alguns passos depois, o autor, já empenhado em deixar nova marca pelo caminho. Fui conhecê-lo. Vestia uniforme da empreiteira contratada pela Prefeitura e só desarmou o olhar ao perceber a sinceridade de minha curiosidade.

– É você quem faz esses desenhos tão bonitos?

– Sou eu, e tem outro ainda mais bonito ali adiante…

Durante a semana, Renato Machado se ocupa da raspagem das ruas da cidade, retirando mato e ervas daninhas dos meios-fios. Aos domingos, faz plantão na praia, para aumentar o salário. Entre uma limpeza e outra, usa a ferramenta para desenhar na areia, como se fosse uma imensa tela. Suas obras não têm assinatura nem registro, a não ser fotos amadoras como as minhas. E é preciso ser rápido, para apreciar essa inusitada exposição a céu aberto: ao voltar para a mesma ponte, notei que parte da rosácea já desaparecera sob passos insensíveis…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

 

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Posted in: Crônicas