Das coisas pequenas [Ana Laura Nahas]

Posted on 09/03/2016

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Ana Laura Nahas*

Falávamos sobre as coisas pequenas, de como sair cedo do trabalho pra ver o mundo com o dia ainda claro é bom, de como andar a pé até a praia é bom e na volta comprar pão caseiro do moço da bicicleta, de como desafinar debaixo do chuveiro é bom, cantar just lalalaiá, daquele modo divertido e libertador como são as boas coisas da vida, ou devem ser – divertidas e libertadoras.

Falávamos das coisas pequenas, de como colar na geladeira os ímãs da Betty Boop é bom, ou aqueles, de 30 palavras dispostas da maneira que a gente quer, casa você madrugada saudade silêncio interrogação e até palavrão; de como a linda frase que o músico disse naquele dia, na primeira página, é boa, boa de doer:

– Eu acho que se pudesse pegar um helicóptero e derramar música para o povo eu faria.

Falávamos sobre as coisas pequenas, de como derramar música de um helicóptero deve ser bom, de como acordar com a vida toda diferente, sem prestações pra pagar, sem roupas pra passar, sem tantas tarefas pra cuidar deve ser bom, de como ter mais tempo e menos obrigações, mais disposição e menos amarras, mais tranquilidade e menos sapatos apertados deve ser bom.

Falávamos de como viver num mundo sem a má política, sem os maus caracteres e sem os maus humores deve ser bom. Falávamos sobre as pequenas coisas, de como acordar bem-humorado é bom, de como andar descalço é bom, e ver a lua da varanda, tomar sorvete de cereja com cobertura de Nutella [delícia], dormir abraçado, ou não dormir, de como o silêncio que as intimidades permitem também é ótimo.

Falávamos de como ter amigos é bom, e rir com eles é melhor ainda, lembrança, diálogo, piada e imaginação, vinho ou vodca, colo, canção, rezar pela gente e levar um pouco da dor irremediável de perder as pessoas, as coisas e o rumo, viajar e enterrar os que nos deixam cedo, puxar a orelha, às vezes perder a linha, estar perto da gente até quando estamos longe.

Falávamos de como estar perto é bom, e também de como são boas as lembranças distantes, aquela semana nas praias da Paraíba, o show dos escoceses naquela noite, os filmes e as histórias, os passeios de bicicleta da infância, as palavras sábias do homem que tinha o dom de saber o que era a vida e seu conselho certeiro: quase tudo que a gente faz movido pelo que sente é permitido.

Falávamos das pequenas coisas, pequenas mas imensamente boas como era, também, aquela conversa sobre sair cedo do trabalho pra ver o mundo com o dia ainda claro, praia, bicicleta, desafinar, ímãs de geladeira, derramar música, andar descalço, dormir abraçado, amigos, perto, sorriso e todo o resto; coisas pequenas, mas imensamente boas.

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* Ana Laura Nahas é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com 15 anos de experiência em jornais, revistas, rádio e internet. Escreve crônicas desde 2002. Seu primeiro livro, “Todo Sentimento”, já esgotado, foi lançado em 2008. Recentemente lançou “Quase um segundo”. Também mantém um blog, http://www.analauranahas.wordpress.com. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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