Os que morrerão pelo amor – e outros [Raul Drewnick]

Posted on 28/02/2016

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Raul Drewnick*

Os que morrerão pelo amor são facilmente reconhecíveis pelo seu sorriso resignado, no qual brilha sempre uma inexplicável alegria.

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Enquanto nos atormentamos para descobrir os motivos pelos quais escrevemos, deixamos passar despercebido o pássaro que bica nossa janela, pedindo abrigo contra o frio, a chuva e as pedras.

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Nunca te banhes, minha querida, duas vezes no mesmo rio, para que a nenhum deles ocorra a tentação de se presumir mar.

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Vocacionado para o suicídio, jamais investiu suficientemente nesse talento.

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Quem escolheria ser Deus, se pudesse ser Shakespeare?

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Fora da poesia, só existem salvações prosaicas.

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Já chamaram Fernando Pessoa de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Mas, francamente, chamá-lo de ortônimo!

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Um gato num sofá é como um arco-íris. Nada lhe deve em beleza, e tem a vantagem de saber miar, quando lhe apetece.

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Nem posso dizer que escrevo porque não sei fazer outra coisa. Sei por acaso escrever?

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Toda vez que ele diz amor, as outras palavras da frase assumem uma mornidão ébria, como a das tardes em que as gaivotas cochilam, voando, sobre o mar.

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Com o tempo, você se habitua às suas derrotas e passa a ter até alguma estima por elas, como se fossem gatinhos cegos e aleijados.

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Jogaram o gato dentro da caçamba e, por uma dessas ironias que os escritores costumam atribuir ao destino, ele caiu esparramado numa poltrona tão morta quanto ele.

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Como Joyce, Guillermo Cabrera Infante conhecia o instinto de promiscuidade que há nas palavras, o desejo de se cruzarem, de se possuírem, de se entregarem à prodigiosa aventura da procriação.

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Tão sórdido é o homem, tão insano, tão destruidor. E, no entanto, se ouvimos Chopin, se lemos Wislawa, toca-nos o impulso do perdão. A arte suaviza os traços de Caim.

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Um parente meu, um longínquo polaco, foi lançado à fogueira, não por falsificar arcos-íris, mas por fazê-los mais belos e perfeitos que os originais.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas