Intervalo [Madô Martins]

Posted on 26/02/2016

1



Madô Martins*

De vez em quando, a vida recomenda: respire, troque a rotina por momentos de lazer. Foi por isso que parei tudo, no meio da semana, para conhecer a praia com cachoeira de que ouvi falar por pelo menos 50 anos, sem nunca a ter visitado, apesar de próxima.

A ideia não foi só minha. Havia um punhado de gente na areia, apesar das nuvens que encobriam o sol. Diante das ondas, pertences começaram a desabrochar como flores: abri a cadeira, o guarda-sol, a toalha, abri os poros, para que todo aquele mar, aquela baía, os morros, as rochas, o marulho entrassem em mim.

Às minhas costas, outro pequeno grupo banhava-se na cachoeira, vários degraus de madeira acima da areia, o som das águas aumentando à medida que me aproximava. Curiosidade e medo. Na subida, vegetação teimando em crescer nas pedras, apesar de  permanentemente sob o fluxo da água que passa sobre ela. Degraus escorregadios de limo. Respingos gelados daquela massa de água que despenca do morro em direção à praia.

Estamos, enfim, frente a frente. A cachoeira que até então só imaginava me desafia e me sinto frágil, diante de sua força. As águas são de um branco imaculado e a temperatura é de tirar o fôlego. Crio coragem e entro naquele reino desconhecido, cuja melhor tradução talvez seja poder e barulho. Aquela mão da natureza pode me partir em duas, se assim desejar. E o banho é tão intenso, que não há tempo para sentir frio ou procurar a melhor posição para receber a violência do jorro. Que, apesar de tudo, não machuca.

Ao contrário, revigora e relaxa, ao mesmo tempo. Volto mais leve para a areia, com a alma lavada e enxaguada, como diria Odorico Paraguaçu, os músculos descontraídos e o mesmo sono de depois da sauna. A toalha estendida sobre a cadeira me aconchega e o murmúrio marinho me acalanta, fazendo o tempo parar.

Algum tempo depois, o mar me recebe, ainda agitado, e a fome começa a se esboçar. Lá no céu, nuvens escuras anunciam que a chuva chegará a qualquer instante. É hora de partir e procurar um restaurante.

Com as roupas ainda úmidas, saboreio uma posta de peixe ao som das trovoadas. Peço  café, e lá vem de novo a vida, com seus recados. Na ilustração do saquinho de açúcar, uma frase em destaque: “Viva intensamente”…

__________

Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Crônicas