Amigos [Ana Laura Nahas]

Posted on 24/02/2016

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O dia oficial é 20 de julho – um argentino resolveu celebrar a chegada do homem à Lua, porque aí, segundo ele, passou a ser possível fazer amigos em outras partes do universo. Mas na prática qualquer dia, inclusive hoje, é dia de celebrar os ombros que ajudam a gente a carregar o peso do mundo, os ouvidos que ouvem o útil, o fútil, o fundamental e o nem, as pernas que batem no centro da cidade, olho, boca, mão, nariz, joelho e cotovelo para tantos verbos quantos caibam na arte do diálogo.

Qualquer dia, inclusive hoje, é dia de comer bolo de chocolate, cantar desafinado, falar a verdade, engolir pizza de ontem e Coca Cola às oito da manhã, falar das dores nas noites de terça, ver Por uma Vida Menos Ordinária de novo e de novo e suspirar pelos dentinhos amarelos do Ewan McGregor, telefonar no auge do descontrole etílico pra falar que “ai” ou marcar um almoço, em cima da hora, simplesmente porque sim.

Qualquer dia, inclusive hoje, é dia de discutir política mesmo que vocês nunca concordem e falar de cinema mesmo que vocês nunca se entendam e comprar presente vagabundo só para fazer graça e rever A Noviça Rebelde e tratar do existencialismo mesmo sem ter lido O Ser e o Nada e pedir ajuda e depois devolver de bom grado e sair por aí quando o mundo perde o sentido, alugar o ouvido e tanta coisa que só aquele poema do Vinicius explica.

– Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A alguns não procuro, basta-me saber que eles existem. Mas, porque não os procuro, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida. Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado.

Qualquer dia, inclusive hoje, é dia de aparecer quando a gente menos espera e trazer problema ou uma planta pra pôr na sala, rezar pela gente e levar um pouco da dor irremediável de perder as coisas, as pessoas e o rumo. Porque amigo é assim: pra encontrar, rodar a praça cantando Roupa Nova e rir cantando até as piores canções, é para contar segredos e repetir mil vezes o mesmo amor, e o não amor, que a gente fala até gastar, emprestar roupa e dinheiro sem juros.

Amigo é pra rir até a barriga doer e alugar o ouvido um pouco mais; é pra viajar e chorar e enterrar os que nos deixam cedo demais e passear com o cachorro e puxar a orelha e às vezes perder a linha. É pra abraçar, e às vezes algo a mais. É pra ir à praia até nos dias sem sol, falar de tudo sem vergonha, andar de bicicleta sem pressa, comer brownie de chocolate com sorvete sem culpa. Amigo é pra tanta coisa, até pra ficar à toa, sem conversa nem planos, sem compromisso nem pressa, sem agenda nem nada. Qualquer dia, inclusive hoje.

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* Ana Laura Nahas é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com 15 anos de experiência em jornais, revistas, rádio e internet. Escreve crônicas desde 2002. Seu primeiro livro, “Todo Sentimento”, já esgotado, foi lançado em 2008. Recentemente lançou “Quase um segundo”. Também mantém um blog, http://www.analauranahas.wordpress.com. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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Posted in: Crônicas