Churrasquinho de índio à espanhola [Luís Giffoni]

Posted on 20/02/2016

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Luís Giffoni*

Qual o maior massacre executado pelo ser humano? Nem de longe foi o Holocausto. Muito menos o dos armênios pelos turcos. Não foi o do rei carola Leopoldo da Bélgica no Congo. Sequer o dos tutsis pelos hutus – nem o revide. Não foi o do Iraque durante os bombardeios norte-americanos. O maior genocídio da história provavelmente aconteceu nas Américas, patrocinado por católicos, em nome de Deus e da ganância por riquezas. Trata-se da conquista espanhola nos séculos 16 e 17. Mataram-se índios aos milhões. Impossível precisar quantos. Um número sugerido por vários antropólogos, entre os quais o canadense Wade Davis, da Universidade de Harvard, seria trinta milhões. Trinta milhões. A população de Minas Gerais e a do Rio de Janeiro somadas. Sem deixar vivo um único indivíduo. Outros cálculos chegam a cem milhões.

Os espanhóis, seguindo uma bula papal do fim do século 15, só revogada no século seguinte, adquiriram o direito de escravizar quem não fosse cristão e, como julgavam que os índios não tinham alma, podiam matá-los à vontade. Exterminaram povos inteiros entre o Chile e a Flórida. Muitos pelo “crime” de não querer se converter ao cristianismo. Não pouparam nem bebês.

Quem quiser saber um pouco mais sobre esses assassinatos em série deve consultar o livro Brevíssima Relação da Destruição das Índias, escrito em 1542 pelo colonizador e encomendero espanhol Bartolomé de las Casas, mais tarde frei e bispo dominicano, que se revoltou contra a matança e a exploração dos índios no Novo Mundo.

Muito se escreveu e ainda se escreve sobre Las Casas e seu livro, contra e a favor, contra seus exageros e sua intransigência, a favor de sua coragem, tenacidade e luta pelos direitos humanos, dos quais foi precursor.

A fama de Las Casas varia entre a de herói e a de traidor, a de salvador e a de mentiroso, sobretudo entre os espanhóis.

Tire as próprias conclusões. Leia o Brevíssima Relação da Destruição das Índias. Assim descobrirá o país que, quase ao mesmo tempo, nos legava a magia de Diego Velázquez e de Miguel de Cervantes, também incensava sanguinários civis, militares e religiosos. Sanguinários que ainda choravam pelos cristãos mortos, quinze séculos antes, nas arenas romanas, uns mil talvez. Ou nem isso, segundo historiadores modernos. Os sanguinários espanhóis não hesitaram em matar milhões de índios a sangue frio, às vezes brincando de tiro ao alvo ou queimando-os. Isso é inegável. Jamais se arrependeram. Também é inegável. Dizem que foi apenas um fato histórico – e pertence ao passado.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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Posted in: Crônicas