Astros do esporte [Rubem Penz]

Posted on 19/02/2016

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Rubem Penz*

Digamos que quatro meninos trocam passes aproveitando o domingo de sol no gramado do playground do condomínio. Por acidente, a bola escapa para longe, lá onde estão caminhando os adultos e suas coronárias saudáveis. Se a ela chegasse a um Leonino, ele a levantaria com o lado de fora do pé, dava três embaixadinhas, chutaria para cima, mataria no peito e, de letra, mandaria a bola de volta para as crianças. Depois, discretamente, olharia para os lados, para conferir quantos haviam assistido o show.

Mas suponhamos que ela corresse na direção de um Virginiano e um Ariano, muito mais à feição do primeiro. De início, o nascido em Virgem pensaria na obrigação ética de devolver a bola aos meninos. Mas vacilaria em como fazê-lo sem correr o risco de torcer o pé… Enquanto isso, cruzando como uma flecha, o Ariano passaria na sua frente, conduziria a pelota e, chegando nas crianças, daria uma bronca: e se a bola fosse para o meio da rua? Já pensaram no risco? Onde estão os pais de vocês?

Se a bola atingisse um Pisciano, ele a pegaria nas mãos espantado. Buscaria, então, sinais nesta coincidência: tanta gente ali caminhando e a bola cai justo para ele! A divagação seria interrompida por um Escorpiano com pouca paciência, já o acusando de atrapalhar o futebol da gurizada. E que, sem pedir licença, pegaria a bola para si, dando um balão para devolvê-la às crianças e retomando a caminhada sem olhar para trás. O primeiro ficaria lá, pensando no destino da raça humana neste ritmo de stress.

Caso a bola caísse para um Libriano, este perguntaria bem alto de quem foi a culpa: um deu o chute torto, ou o outro que não dominou? Dependendo da resposta, um ou o outro precisaria buscar a bola ali mesmo, para aprender a ter mais cuidado. Se fosse um Aquariano, não resistiria em ir até os meninos para planejar em grupo uma outra forma de jogar, inovadora, segura e capaz de evitar novas escapadas da bola.

Os amigos Sagitariano e Canceriano que caminhassem lado a lado receberiam a bola com bom humor, caso assim ocorresse. O homem-cavalo bateria no ombro do homem-caranguejo e o convidaria para jogarem com os meninos, saindo em disparada e sem esperar resposta. O outro o seguiria com “quem sabe a gente continua a caminhada”, “não sei se é uma boa ideia”, “pode pegar mal” etc. No final, o Sagitariano rolaria pelo chão, gritaria, marcaria vários gols. Enquanto o Canceriano jogaria, sim, mas preocupado em estar pagando um mico.

O Taurino devolveria a bola de bate-pronto. E daria um tempo em sua caminhada para avaliar o desempenho dos jogadores. Quem sabe estaria entre eles um novo Falcão ou Zico? Na certa, precisaria de um bom empresário… O Geminiano não seria assim tão imediato na devolução da bola, caso ela viesse em sua direção. Seria preciso ponderar suas próprias habilidades antes de chutar. E pensar no risco de a bola bater em alguém, acabar mais longe ainda ou até machucar uma das crianças. É: seria o ideal devolver com as mãos…

Porém, os quatro meninos deixam a bola escapar e não acontece nada disso: ela cai justo nos pés de um Capricorniano. Ele, se aproveitando da situação, sai conduzindo a pelota como se fosse sua, só de sacanagem. Com isso, os piás precisarão correr para recuperá-la. Depois, certamente, continuarão a jogar com muito mais cuidado.

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Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro o Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas