Whatsapp [Marco Antonio Martire]

Posted on 17/02/2016

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(Imagem: Marcelo Oliveira) 

Marco Antonio Martire*

Sim, ela se foi, protegida pelos caracteres do Whatsapp, aplicativo que ambos usávamos incansavelmente, no lugar da conversa por voz via celular. Eu não sei dizer por que preferimos deste modo, o encanto se firmava no relacionamento e preferíamos trocar afeto em forma de palavras através do aplicativo. A tecnologia fascina. Mesmo assim, eu me perguntei várias vezes, quando ainda havia tempo de corrigir tudo, se não era mais legal ligar, destacar a emoção claramente, em alto e bom som.

Ela parecia não se importar com o uso do aplicativo. Eu mergulhava de peito aberto na tela do celular, teclando e descrevendo o que sentia, marcando nossos encontros. Encontros tivemos muitos. E todas as vezes que tivemos sucesso em nos encontrar pelas loucas ruas desta cidade tropical eu poderia ter agradecido ao Whatsapp. Felizmente, não havia tempo para isso, eu e ela estávamos juntos e os beijos vinham substituir os assuntos, os assuntos vinham substituir os beijos. No celular, nossa conversa no topo dos nossos tópicos brilhava de tão utilizada.

O que me incomoda hoje é o tópico dessa conversa abandonada. Lá se vai o nosso tópico, cede o lugar às outras conversas que prosseguem, prosseguem e prosseguem. Nossa conversa desaparece devagar e eu contemplo sem jeito o seu destino. É o caso de procurar o Whatsapp — acho que o dono é o Facebook — e pedir que faça uma exceção: mantenha a conversa onde está, para que eu não me sinta tão desamparado.

Olá, seu Zuckerberg, dou esta dica: dê-me um prazo para assimilar. Quanto tempo não sei, mas se o aplicativo aguentar, um dia responderei. Minha resposta será assim: este tópico foi conversa adorável em outra era, finalmente encerro, nem sei o que dissemos, faça-o descer. Serei outro.

Tem valor diferente a conversa por telefone, tinha a conversa antes do email, antes das cartas. Antes o amor era o afeto do presente, passou a ser também o afeto do passado. Creio pouco nessas visitas. Mas tenho aqui a memória e ela funciona, não é mesmo? Minha tarefa continua sendo encontrar o caminho através das memórias sem fim, conversa a conversa, tópico a tópico, agora também no aplicativo.

Não quero dizer mais nada. Fim de tópico. Não é abandono, nem desapego ou falta do que fazer. O tempo passa pra valer e o tópico que responde pela nossa conversa some de verdade, surge no Whatsapp e na vida uma distância antes inesperada, que se transforma em vereda antiga.

Vereda por onde eu caminhei sedento.

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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Posted in: Crônicas