O sonho ainda não acabou [Guilherme Tauil]

Posted on 16/02/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini) 

Guilherme Tauil*

Está na hora, minha gente. Não dá mais para ir levando. Vamos encarar: o sonho de padaria é um equívoco. Uma falha do nosso sistema. Um disparate culinário. É grande demais, com açúcar demais. Embora tenha essa carinha popular, comer um sonho demanda tanto conhecimento prévio que só alguém muito experiente pode dominar. Fora, é claro, todo o tempo de sobra necessário para traçar a estratégia glutona.

Comer um sonho é uma peleja da qual quase ninguém sai impune: os barbados ficam cobertos de um pó branco que, de tão suspeito, pode até trazer complicações. As crianças inalam a vasta camada de açúcar e derramam aquele creme amarelo na camiseta e na bermuda – sejamos francos, vai: no tênis, na meia e na cueca também. Os idosos, com mobilidade reduzida, não sabem nem por onde começar a abocanhar a dulcíssima aberração.

Se você não acredita em mim porque tem doces memórias de infância envolvendo o quitute, faça o teste: da próxima vez que a garçonete trouxer um prato farinhado com um sonho, observe a odisseia gastronômica pela qual o sujeito precisa passar. Aconteceu comigo na semana passada. A vítima era um trabalhador de meia idade, e, pela falta de tato, logo vi que não era um comedor de sonhos. Estudou a melhor maneira de segurar o trambolho, num esforço comparável a quem se apronta para domar um x-tudo, e desistiu. Ensaiou pegar talheres, mas logo pensou que sonho não se corta. Precisava usar as mãos. Armou-se com guardanapos e segurou o bicho com força o suficiente para fazer transbordar creme entre os dedos. Esboçou uma careta de desconforto, pegou mais guardanapos, percebeu que não davam conta de absorver a oleosidade em questão e puxou mais um punhado. Foi exatamente esse o momento em que o sujeito se viu obrigado a desistir da civilização e encerrar logo a história.

Quem escava três vezes seguidas a caixinha de guardanapos está em apuros. Não tinha mais volta. Era mandar goela abaixo ou desistir do seu sonho. Embalado talvez pelo dito popular, respirou fundo para afinar a concentração, esqueceu a padaria cheia e começou a selvageria. Três mordidas e o homem tinha se livrado daquela humilhação – não, é claro, sem as marcas da batalha que nem o restante dos guardanapos deu conta.

Pensei em entrevistá-lo: por que não um quindim? Talvez oferecer um gole do meu suco, mas via-se que já tinha passado por muito. Não pude deixar de me sentir culpado. Faço parte de uma geração que, assim como todas as anteriores, em alguma medida, falhou. Falhou porque não reformulou o sonho de padaria. É verdade que criaram o minissonho, mas quase não se vê por aí. Não pegou. O povo gosta mesmo de batalhar pelos sonhos.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças. 

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Posted in: Crônicas