Algumas ninharias por preço justo [Raul Drewnick]

Posted on 14/02/2016

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Raul Drewnick*

Pensemos em quantas vezes nos leem por delicadeza e não nos apressemos em submeter nossos amigos a mais uma dessas provas com os quais os temos tão continuadamente constrangido.

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A pior coisa que pode acontecer a um escritor é achar que tem uma missão. Uma vocação ainda se admite, desde que seus surtos sejam bem ocasionais.

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Viver por amor é tão monotonamente prosaico; morrer por amor é tão maravilhosamente poético.

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Lamenta que, quando estiver pendurado na corda, não poderá desfrutar o espanto no rosto daqueles que sempre o consideraram incapaz de levar avante seus projetos.

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A arte pode ser simples e vulgar como uma bijuteria. É sob essa forma que ela mais costuma agradar à maioria.

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A demência e a literatura caminham juntas. No meu caso, a demência está sempre alguns passos à frente.

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Fio por fio, com a língua amorosa, ele rega a áurea relva que guarda um dos tesouros que ela às vezes lhe oferece.

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Que pode querer um homem senão ser tocado pela beleza? Pode parecer pouco, pode parecer nada, como pode parecer pouco, como pode parecer nada o pouso de uma borboleta numa flor. Assim são as coisas da alma, leves como o sopro da brisa no sonho de um menino.

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Um poeta há de sonhar sempre sonhos impossíveis, mulheres inalcançáveis, estrelas inatingíveis. Suas mãos deverão ser sempre incapazes de segurar, de reter, de apreender.

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Quando rimou azul com taful e iníquo com delíquio, nem a associação dos poetas tolerou: cassou-lhe o registro.

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Morrer por amor não deveria ser uma virtude que alguém precisasse proclamar.

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Não acredito muito em sobriedade na poesia. Ela há de ser descaradamente sentimental, vergonhosamente romântica, abrir-se em gritos e rasgar-se como uma puta velha abandonada por seu jovem gigolô querido.

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Na cama ela valia qualquer sacrifício – desde o inicial, de ele precisar pedir cem vezes, bem contadas, me dá, por favor, me dá, me dá, até o final, de ele dizer, cem vezes também, o nome dela acompanhado do adjetivo querida.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas