A leveza de Tereza [Elyandria Silva]

Posted on 09/02/2016

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Elyandria Silva*

No livro A insustentável leveza do ser, publicado em 1984, Milan Kundera nos apresenta Tereza e Tomas. O casal se conheceu numa pequena cidade, na estação de trem, apaixonaram-se. Com a desculpa de que estaria na cidade a trabalho, uma semana depois Tereza batia à porta de Tomas. Sem dizer uma palavra fizeram amor na mesma hora. Ele a convidou para ficar e, desde então, passaram a morar juntos, enquanto Tomas pedia ajuda a uma amiga (e também amante) para encontrar emprego para sua amada. Com problemas em relacionamentos amorosos, Tomas, médico, depois da separação da primeira mulher, havia jurado viver sozinho para sempre. Entretanto, tudo se encaixou e o casal Tereza-Tomas vivia bem até que… o ciúme começou a mostrar as garras. Tereza, incitada por desconfianças, começou a mexer nas coisas de Tomas e encontrou cartas amorosas recentes, além de outras provas de traição. Sim, o homem com quem estava vivendo há pouco tempo a estava traindo. Sem ter como negar, Tomas silenciou e continuou com suas infidelidades. Confusa e com medo de voltar para uma vida difícil e sofrida, ao lado de uma mãe perversa e psicologicamente destruidora, a mocinha escolheu viver um casamento de aparências e enganações.

No salão de beleza uma jovem e bela mulher, conformada, porém, revoltada com sua aparente falta de sorte contava em alto e bom tom sua história, para quem quisesse ouvir. “Tenho um casamento de aparências. Convivemos o necessário, nos cumprimentamos, decidimos continuar assim por causa dos filhos, mas cada um dorme no seu quarto. Ele sai quase toda noite e eu libero porque não quero homem mal humorado em casa por causa de sexo.”

Tereza aceitou as imposições de um marido libertino, que se dizia apaixonado, em troca de praticamente nada. Aos poucos o peso das mentiras, aliado à infelicidade daquele amor que escorreu pelo ralo, deu forma a um fardo muito difícil de carregar e a vida tornou-se insuportável. Anos depois Tereza o abandonou, deixando uma carta de despedida.

A jovem com a tinta no cabelo tornava surpresas a todas as outras. Risos disfarçados, olhos arregalados. Alguém comenta: “Ih, tá cheio de casamentos assim por aí, de aparências, só que elas não assumem, fingem para a sociedade”. Veio o espanto, seu nome também era Tereza. Vou escrever uma crônica sobre você, falei. Pode escrever, respondeu.

Ambas as Terezas, a da ficção e a da vida real eram leves, até o casamento de faz-de-conta as obrigar a carregar um fardo tão pesado assim. A banalização do matrimônio já não é mais novidade para ninguém; por isso, nada a julgar, a ninguém é dado esse direito. Isso faz algum tempo, mas as duas Terezas insistiram em ficar cá por minhas lembranças, tal qual Kundera e sua leveza. Quem sabe é por este motivo que torço tanto por elas, para que encontrem a leveza da vida novamente, o quanto antes.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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