Rachel, o brasileiro e o sertão

Posted on 01/02/2016

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É curioso observar como Rachel de Queiroz também faz da crônica um território para falar dos mistérios do Nordeste – só comparáveis, ela diz, aos da Terra Santa. “O brasileiro perplexo”, lançado pela Editora do Autor em 1963, reúne uma porção de textos feitos para a imprensa que reúnem a temática sertaneja. Poderiam ser contos, se Rachel se considerasse capacitada para escrever contos – ela preferia aproveitar o ar descompromissado da crônica para ali incluir narrativas e histórias ficcionais.

São histórias de tipos comuns, muitos tendo como companhia a pobreza, o sol e o mormaço, gente que tem apenas o mínimo, e até esse mínimo é chorado. Existem os paus de arara, que deixam as asperezas da catinga nativa pelas grandes de São Paulo, mas também há coronéis, caçadores, brigas de touro – esporte que vinha rareando.

Há uma coisa que, segundo Rachel, se perde na cidade: são as estrelas. No sertão os homens, a bem dizer, se preocupam mais com o céu que com a terra. Também é apenas ali, no silêncio abençoado do sertão, que consegue um período de repouso – e pensar que existe lugar no mundo onde é possível escutar um grilo! Ah, mas às vezes é preciso se preocupar com as coisas urbanas mesmo, e Rachel também está atenta às misérias, tragédias e solidões que encontra no Rio de Janeiro – cidade em que até mesmo o namoro havia se tornado contravenção.

Também evoca algumas de suas lembranças mais sagradas, mas sem achar que antes é que se vivia melhor. Divaga sobre a morte, sobre a arte de ser avó, mas o grosso do livro mesmo é composto por pequenas novelas, histórias de amor, de guerra e até de espíritos. Talvez a imaginação seja mesmo uma boa saída diante de uma realidade que nos deixa perplexos – e que continua deixando, mais de 50 anos depois.

Henrique Fendrich

brasileiroperplexo

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