Glúten [Daniel Cariello]

Posted on 29/01/2016

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Daniel Cariello*

Ele estava em um boteco na Tijuca. Ela, também. Ele a percebeu e ficou observando, de pé, ao lado de uma pilastra. Ela o encarou, da mesa onde estava. Ele foi se aproximando, olhar fixo no dela. Ela não piscou e nem virou a cabeça.

– Posso sentar-se? (Ele não sabia usar pronomes)
– Claro! Sente-me. (Ela sabia ser irônica)
– Tramando o quê?
– Pensando na vida.
– Olha só como são as coisas. Eu tava fazendo o mesmo, no meu canto. Isso só pode ser um sinal.
– Vermelho?
– Você não vê? Você aí, sozinha, matutando sobre sua vida. Eu, hímem (ele também se enrolava com palavras complicadas). Acho que devíamos unir nossos esforços e começarmos a pensarmos em uma vida juntos.
– Mas só nós dois ou toda a galera do bar?
– Hã?
– Você exagerou tanto no plural que fiquei em dúvida de quantas pessoas se tratam.
– Só nós dois. Você e eu. You and I. Tuá e muá.
– E se eu aceitasse, o que faríamos, em seguida?
– Ué, iríamos pra minha casa.
– Pra quê?
– Pra transar como loucos.
– Sou frígida.
– Não se preocupe, também sofri muito. Prometo cuidar de você.
– Sou frígida, eu disse.
– Hã?
– Não sinto nada quando transo.
– Nada?
– Nem cócegas. Então não adianta irmos pra sua casa pra isso.
– Podemos ficar só nos beijinhos.
– Tenho herpes.
– Herpes?
– Desde criança. Minha boca fica toda estourada. Olha aqui…
– Mas e se você cantasse uma música pra mim? Eu já ficaria feliz com uma música.
– Tive um problema com minhas cordas vocais. Consigo falar, mas não posso cantar nada.
– Uma dança?
– Perna mecânica…
– Um poema? Pode declamar um poema?
– Detesto poesia.
– E cafuné, rola?
– Não. Tenho agonia do cabelo alheio. Sinto muito…
– Bom, se é assim, vou indo-me.

Disse e levantou-se. Ela insistiu pra ele ficar.

– Não vá, podemos ao menos conversar. O que me diz?
– Ok, tá bom, eu fico-me, mas só um pouco mais.
– Vamos pedir algo pra comer… Ei, garçom, dois sanduíches de pernil.
– Sanduíche?
– É, o de pernil aqui é imperdível.
– Não posso. Tenho alergia a glúteos.
– A glúteos?
– É, todo pão tem glúteos.
– Glúten?
– Isso, glúten. Sou alérgico, não posso, fico todo emperebado, a garganta fecha, um horror.
– Alergia a glúten? Mas você é complicado, hein, rapazinho…
– Bom, sabe de uma coisa? Fui-me!
– Não vá! Volte-se-me! Volte-se-me…

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras e excepcionalmente nesta 6ª feira.

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