Aquela neve toda [Elyandria Silva]

Posted on 28/01/2016

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Elyandria Silva*

É como uma sombra de algo que não se sabe o que é. Estranho o medo sentido quando se começa a ouvir que a população deve fazer estoque de lenha, água, se abrigar e tomar outras providências para enfrentar o fenômeno do frio que chegará nos próximos dias. Assim como Katrina, de alguma forma, amenizou o nome de furacão, talvez um nome doce como Carolina, Maria ou Lorena pudesse atenuar, ao invés de pronunciar Geada Negra. Pois bem, eu fiz o que mandaram. Tem estoque de mantimentos para dias. Tem também planejamento, estratégias formuladas para imprevistos trazidos pelo frio polar. Só não tem um esconderijo secreto, caso a Geada resolva invadir as casas e nos engolir vivos.

Era 1980. Eu tinha 6 anos e uma franja torta colada na testa, o que me tornava uma garota engraçadinha. Vi a neve pela primeira vez. Foi só naquele dia, depois nunca mais. Tem coisas que são assim mesmo na vida, só se vê uma única e inesquecível vez. A casa cheirava a feijão. O vapor da panela invadia cada canto, se debruçava sobre nosso olfato, embaçava os vidros. Tornamo-nos espiões de vidraças úmidas durante horas, todos, os sete moradores daquela casa de meninas de cabelos longos e negros que abrigava violetas na janela. As aulas foram suspensas.

Éramos crianças que não pensavam no futuro porque não sabiam que ele existia. Naquele dia levantamos da cama tarde. As palavras já perderam a cor, desbotaram com o passar dos anos, mas é possível que quando vieram nos chamar, na porta do quarto, para ver o espetáculo, tenham dito “Meninas, levantem, venham ver a neve!” Corremos. Atropelamos quem já estava apreciando. Colei a testa no vidro gelado. O punho do pijama encostando à moldura da madeira da janela. E então, lá fora, era uma imensa fábrica de flocos brancos. Aquela neve toda. Uma coisa tão linda de se olhar. As emoções petrificadas. Todos se olhavam. Os pequenos comentários. Os sorrisos de dentes gelados. Uma tecelagem de um Deus, que também devia ser branco, cobrindo tudo de cristal. A grama, os pinheiros, as calçadas, os telhados. Tudo. Todos fechando os olhos para o gelo invencível. Um arrependimento: não fizemos boneco. Tudo bem. Os vizinhos fizeram.

Emoldurei a imagem. A felicidade branca não tem nome, só codinome. Guardo-o comigo, isso não precisa contar.

É 2013. Somos adultas. Pensamos no futuro mesmo sem querer. Pensamos muito mais no passado porque ele foi bonito e brilhante. E a neve voltou. Como naquela manhã com cheiro de feijão. E seria de um realismo fantástico se os morros de Jaraguá do Sul ficassem brancos. Morros nevados em Jaraguá do Sul… seria uma imagem perfeita.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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