Adágio para 2016 [Ana Laura Nahas]

Posted on 27/01/2016

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Ana Laura Nahas*

Você sabe que, no último ano, muito tempo passou. Sabe que houve tentativas, caminhos, caprichos, desapontamentos, projetos, sonhos, esperas e a imensa capacidade de dizer do silêncio. Sabe que houve a solidão das ausências, o barulho dos excessos, o riso da madrugada, a inspiração das conversas e o amor que não cabe. Você sabe a respeito do esforço que houve para compreender as escolhas alheias, a liberdade, os limites e as vontades, e desconfia do quanto ainda haverá.

Você sabe que, nos últimos dias, muito tempo passou. Sabe que houve reencontros regados a gim com água tônica, boas risadas, planos para o carnaval e até um pouco do próprio, por antecipação. Sabe que houve surpresas, pausas e retornos, descobertas, vodca e sentimentos, futilidade e humanidade, colo e cafuné, revelações de balançar até a fé mais frágil e discos. Você sabe que houve também alegrias e a verdade posta atrás da aparente simplicidade de certas canções.

Você sabe, 2016, que nas últimas horas muito tempo passou. Sabe que foi preciso correr para dar conta das últimas tarefas do ano e então brindar a sua chegada com toda a leveza do mundo, porque dizem do ano novo que ele segue do mesmo modo que começa, livre se começa livre, triste se começa triste, samba, blues ou bolero de acordo com a trilha sonora que a gente escolhe para embalar o brinde.

Você sabe que, nos últimos meses, muito tempo passou. Sabe que houve livros novos na estante, uma homenagem, mais uma perda, o encanto daquela menina por um sujeito que não diz o que pensa porque simplesmente não pensa – e a ideia, cada vez mais firme, do quanto aquilo talvez signifique, de fato, ser livre. Sabe que houve perguntas, para que o costume não se perca por aí, para que o mundo siga, para que movimento dance e os afetos rejuvenesçam ou então floresçam.

Você sabe também o quanto neste tempo todo andamos esquecidos da verdadeira essência das palavras – e é como se tivesse sido ontem a aventura narrada pelo filósofo sobre o homem que andava por Atenas, em fins do quinto século antes de Cristo, pedindo explicações sobre o significado de expressões usuais dos interlocutores que encontrava pelo caminho. Aos juízes e advogados, perguntava o que era justiça. Aos guerreiros, indagava sobre a coragem. Aos supostos sábios, questionava sobre a sabedoria, concluindo que, na maior parte das vezes, a despeito de toda a letra, não sabemos tão bem sobre o que estamos falando.

Sócrates, o homem que andava por Atenas em fins do quinto século antes de Cristo pedindo explicações sobre o significado de expressões usuais dos interlocutores que encontrava pelo caminho, parecia saber que perguntar é mais libertador que responder, e vai ver diante da resposta sorrisse o riso escancarado dos dias de sol, da melodia e do movimento que desejo sejam seus fundamentos – no sé muy bien que nombre darte, más lo quiero hacer es salir a bailar un poco.

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* Ana Laura Nahas é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com 15 anos de experiência em jornais, revistas, rádio e internet. Escreve crônicas desde 2002. Seu primeiro livro, “Todo Sentimento”, já esgotado, foi lançado em 2008. Recentemente lançou “Quase um segundo”. Também mantém um blog, http://www.analauranahas.wordpress.com. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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