Caça às bruxas [Daniel Russell Ribas]

Posted on 25/01/2016

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Daniel Russell Ribas*

Dito isso, o “bárbaro”, para uma pessoa, é uma outra pessoa “que apenas faz aquilo que todos fazem”.

Susan Sontag – Diante da dor dos outros

Numa das cenas mais emblemáticas do filme “Monty Python: Em busca do cálice sagrado”, Rei Arthur chega a um vilarejo em que os aldeões, entusiasmados, traziam uma suposta “bruxa” para ser queimada. Belvedere, o sábio da área, pergunta se tinham alguma prova. As afirmações são absurdas, desde deformidades físicas artificiais, como um nariz pontudo falso, ao homem que diz ter sido transformado em uma salamandra. Ao ver que ele é um ser humano, o “juiz” o questiona. O acusador meramente responde que “melhorou”. O julgamento, em si, é tão esdrúxulo quanto. Para ser considerada uma bruxa, a mulher teria que pesar o mesmo que um pato. Ela é então posta em uma balança defeituosa, de modo que o resultado aponta uma improvável igualdade de peso em ambos. “Eu desisto.”, diz enquanto é levada pelos moradores enlouquecidos para a fogueira.

Lembro-me dessa cena quando penso na tensão social de uns dois anos para cá. O importante é defender seu ponto de vista, agressivamente. O fato de ter argumentos sólidos se torna irrelevante e, até, motivo para acirrar ainda mais a discussão. Não se aceita que o outro tenha um ponto de vista diferente, que pode estar errado ou certo. É preciso vencer nem que seja pela força. Não se trata de mera histeria, mas algo mais quieto e assustador. É uma violência verde, que desenvolve a ponto de se colher no galho e ser consumida por inteira.

A polêmica deixou de ser um momento de reflexão para se tornar num palco de reality show. Queremos ser vistos, sem medir as consequências. Isto surge de braço dado com a ausência da empatia. É tão comum quanto irresistível. Já temos uma natural propensão a vasculhar o bizarro. Agora não é preciso tanto,pois o retiramos de nós mesmos. Qual é a solução para isso? Não interessa. O sangue que toma as faces dá um barato e tanto. A diversificação de movimentos e linhas de raciocínio não serviu para ampliar, mas segmentar ainda mais o debate, qualquer que este seja. Vemos bruxas em potencial e mal podemos esperar para queimá-las em praça pública. Porque isto é o que acontece com quem discorda de mim. O mantra agora é esse, e azar de quem não recitá-lo junto.

Há um ano, fui agredido por um grupo de rapazes de classe média por nenhum motivo. Eu só estava sozinho num bar e pularam em cima de mim. Tive uma crise de pânico severa por um mês. Não saía de casa, temia os olhares, a perseguição era uma realidade tão forte quanto os dias e as noites. Nunca soube o real motivo. Não os conhecia, sequer trocamos palavras antes. Foi um acaso. Poderia ter sido qualquer um. Eu só estava bebendo num bar em Copacabana à noite e calhei de atrair a atenção de um grupo que sequer notara. Por quê? Eventualmente, me recuperei.Encontrei uma resposta que, se não é definitiva, parece a mais lógica: insensatez. A diferença é que isto é encarado como algo normal, quando deveria ser o contrário.

No ensaio Diante da dor dos outros, Susan Sontag discorre sobre a reação a imagens de sofrimento e crueldade. Seu questionamento é se o excesso dessas teria retirado nossa capacidade de sentir a experiência alheia. Outro dia, li sobre os feridos em uma manifestação em São Paulo. A truculência dos internautas na seção de comentários, em que escreviam que a polícia estava certa em agredir os “vagabundos” que atrapalhavam “as pessoas de bem” de chegarem em casa atinge como uma bala de borracha na consciência. A loucura protegida por uma tela de computador não é nova, mas verificar que saiu do virtual para o dia a dia preocupa. (ou será que sempre esteve?…) A questão profunda não é quem estava certo, se os manifestantes ou a força policial, mas como a imagem de pessoas sangrando é vista como uma punição merecida e incentivada, independentemente dos motivos e das condições de enfrentamento.Não há qualquer esboço de empatia ou compreensão. Um julgamento salemiano, em suma.

O clima de torcida rival espalhado se tornou uma fera de apetite insaciável. Seja no banco esperando para pagar uma conta ou no supermercado, há alguém falando alto sobre sua insatisfação. Buscam aprovação em monólogos ensaiados, vários desses rasos e repetitivos. Ouço e expiro. Vale a pena conversar com alguém surdo? Ainda vale se você acredita. Mas é preciso ouvir. Às vezes, mais do que falar. A diferença é que agora basta pouco para a situação degringolar em algo destrutivo. Não basta rebater, apenas parecer. Como a mulher na cena do filme do Monty Python, assim é se lhe parece. Na dúvida, ponha um nariz falso.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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