Frases no balcão de saldos [Raul Drewnick]

Posted on 17/01/2016

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Raul Drewnick*

Por anos e anos você pensa que não tem nenhuma importância e de repente descobre que não tem importância nenhuma.

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Teus futuros escombros já te pesam sobre os ombros como um cadáver.

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Se você pode morrer por amor, está esperando o quê?

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Quando ela se enxugou depois do banho, um pingo conseguiu esconder-se entre os seus cabelos, para gozar a suprema delícia de dormir com ela.

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Às vezes o amor precisa se descabelar e gritar do alto da torre, como uma monja louca, para se fazer entender.

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Bloquear alguém na rede social é a moderna versão da cusparada no rosto.

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Não pode conceber uma alma jubilosa. A sua é alimentada por infortúnios que, quando grandes, ele os parte amorosamente, como se estivesse esfarelando um biscoito para um gato.

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O que diremos a quem nos matou? Que foi uma bênção termos tido tão gentil carrasco? E quem acreditará na voz de um defunto?

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Lavei a alma, e ela me parece tão triste agora, assim vazia.

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Hoje, quando falo de amor, sinto-me como um sapo tentando lisonjear a lua.

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O mais triste de tudo é ter a certeza de que nunca, nem para os seus dedos, nem para os seus dildos, ela murmurou meu nome.

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Sôbolos rios que vão, seguimos percurso atroz. Eles à foz chegarão, porém chegaremos nós?

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Mostremo-nos como somos: desprezíveis. E, se alguém revelar compaixão por nós, sejamos ainda mais desprezíveis: aceitemos.

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O ato que pratico com mais empenho e desenvoltura é o da omissão. Se eu fosse ator, me agradaria fazer o papel de morto.

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Com um descontinho, a 25 de Março rapidinho sai por 22 ou 21.

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Tão mais formosa ela está hoje que a brisa e a quaresmeira do parque, em breve conluio, resolvem atirar-lhe uma flor, como se ela fosse uma rainha e a bicicleta fosse sua carruagem.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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