“ – Lembra da aranha que morava no arbusto do lado de fora da sua janela?”

Posted on 16/01/2016

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Mariana Ianelli*

Acontece de repente de você se lembrar, e lembrar com detalhes, brilhos, texturas que parecem mesmo irrefutáveis. Depois daquela conferência sobre Kaváfis, parando numa mercearia, o gosto mediterrâneo de umas azeitonas. A reunião da Cabala em torno de uma lamparina de petróleo. As vacas comendo o veludo, os assentos e os armários das salas oficiais arruinadas. O amor feito à tarde, sempre à tarde, num quarto invadido pelos cheiros e barulhos da cidade, e a cama separada do fluxo da rua apenas por uma veneziana. A dança indecorosa da irmã no meio da roda, escandalizando pai, mãe, irmãos, tios, tias, toda a família. A casa destelhada, como que emborcada para o céu, no ritual do luto. O povoado vazio debaixo de um sol dos infernos, com fantasmas à espreita nas esquinas, dentro das casas, atrás das janelas, nos corredores. As marteladas subindo pelo ar, as marteladas e a serra também, trabalhando com capricho, fazendo o caixão. São relances, fragmentos de imagens, memórias, figurações do fictício, pouco importa: são partes de você, lascas de sua história, que se misturam a traumas e êxtases de antepassados inscritos nos códigos das células, e se misturam ao humor negro herdado da avó, à melancolia azul da mãe, à predileção do pai por palavras musicais, à paixão por composições, perspectivas, formas, relevos e volumes do pendor artístico do avô. E se disserem que não, que não aconteceram com você, que essas coisas não lhe pertencem, que todas essas imagens são só páginas de livros, cenas de romances, acontecimentos de empréstimo, memórias implantadas, como, em Blade Runner, a lembrança que a androide Rachel tinha de sua infância, de dezenas de aranhazinhas que um dia eclodiram de um ovo e devoraram a aranha mãe, se lhe disserem, como disseram para Rachel, que uma infância assim nunca foi sua, então você, que a essa altura não se deixa mais vencer por tão pouco, você, que não facilita mais para mesquinhos nem espezinhadores, você apenas vai sentir sinceramente muita pena dessa pobre fantasia da razão, que tantas vezes já se quis intrometer em sua vida, e ainda se intromete na vida de tantos outros, sob o pretexto de os fazer discernir melhor, debulhando sonhos de sonhos.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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