A mesa de lá e a mesa de cá [Elyandria Silva]

Posted on 14/01/2016

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Elyandria Silva*

Pizza com cebola. Não, obrigada, não gosto! Pizza com alho. Não, obrigada, também não gosto! Quem me dera poder saborear com prazer generosas rodelas de cebola ou engraçadinhos pedacinhos de alho e, depois, sorrir satisfeita. Admiro quem faz isto e me sinto culpada por desprezar alhos e cebolas, sem ao menos saber quando tal aversão teve início. Finalmente nossa pizza gigante chegou e entre risadas, conversas, goles de cerveja, goles de guaraná, cebolas afastadas gentilmente e brócolis que imploravam para serem comidos, nós, da mesa de cá, olhamos curiosos quando eles, da mesa de lá, pai, mãe e filho, entraram e sentaram. Pizzaria pequena é bom, clima intimista, aconchegante, poucas mesas, atendimento rápido e breves olhares curiosos para quem entra e sai.

De repente, gritaria na mesa de lá. Nossas cabeças viraram juntas para ver o que estava acontecendo. Uma pequena criança, possuída, urrava batendo o garfo e a faca na mesa, com grande revolta, para dizer que não queria pizza portuguesa. Gritaria tão assustadora que deixou os pais, o garçom e nós, da mesa de cá, em estado de choque. O garçom conseguiu fugir. Nós, constrangidos, baixamos nossas cabeças e rapidamente começamos a mastigar, devo até ter engolido alguma cebola. Os pais ficaram reféns da ira de sua cria, sem ação, com medo. Ameaçaram ir embora, foi pior, a criança se revoltou por ter sido enfrentada, os pais calaram enquanto o pequeno ser, aos poucos, foi voltando ao normal, certo de que venceu mais uma batalha invisível entre o domínio e o respeito.

A pizza chegou, mas o silêncio, acompanhado de tensão, tomou conta da mesa de lá. Talvez porque soubessem o que nós, da mesa de cá, estávamos pensando. Fomos testemunhas da triste impotência de um pai e de uma mãe perante o comportamento de uma bela criança sem limites. Chutar o balde, desaparecer, sair correndo, cair em um buraco debaixo da mesa, sim, era uma destas opções que o casal queria naquela hora, com certeza. Nada disso! Lá no fundo, bem lá no fundo, eles gostariam de ser como os pais deles, como os meus pais, como os pais de vocês, que educavam apenas com um olhar, com uma cara feia e, caso não resolvesse, com um ou vários tapas na bunda.

Lá pelas tantas nós, da mesa de cá, havíamos esquecido a família da mesa de lá e ríamos com tantas histórias, mas quando eles levantaram para ir embora e nos olharam, entendemos o recado de que aquilo tudo que presenciamos era problema deles. Tudo bem! Ficamos ali, felizes, torcendo para que a bela criança não estrangulasse os pais, quando chegasse em casa, por eles terem pedido pizza portuguesa.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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