As pontas da vida de Elsie Lessa

Posted on 12/01/2016

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E dizer que alguém pode escrever crônicas tão sensíveis por quase 50 anos ininterruptos e ainda assim permanecer obscura nos círculos literários! De fato, não são muitas as pessoas que hoje se lembram dos textos da escritora Elsie Lessa (1914-2000) – quando muito, ela é citada como mãe do também cronista Ivan Lessa. E, no entanto, o que dizer das crônicas que Elsie escrevia para “O Globo”, reunidas em alguns poucos livros, como este admirável “Ponte Rio-Londres”? Se um dia pedíssemos que alguém se mudasse para a Inglaterra e de lá passasse a escrever crônicas sobre como lhe fosse a vida, dificilmente alcançaríamos um resultado mais bonito do que este que Elsie nos apresenta. São textos essencialmente líricos, cheio de belezas insuspeitas, e que nos transportam da maneira mais aprazível possível para o cotidiano da velha capital inglesa.

É verdade que muitos se queixam, acham Londres uma cidade fria, calada, hostil, as pessoas tristes, fechadas, sérias, o tempo chuvoso e cinzento. Mas para Elsie ficar sentada em um dos parques da cidade já é todo um programa. O que lhe agrada na terra da rainha é justamente que ela seja assim tão rural e agrícola, com hortas, jardins, quintais, parques, campos verdes, a paz, o silêncio, as árvores… Londres, para ela, é uma grande roça. E deve ser por aí mesmo que a cidade vem tão a calhar com o espírito da crônica brasileira. Certamente ajuda o fato de Elsie caminhar a pé, a melhor maneira de conhecer uma rua, um bairro, uma cidade. Há vizinhos dos mais interessantes, e não se trata apenas de Margaret Thachter ou Ingrid Bergmann, mas de simples ingleses que tiveram toda a sua humanidade ressaltada pelo talento da cronista.

Uma cidade maternal 

Acontece uma coisa curiosa em Londres: as pessoas acreditam em você. É uma experiência das mais extraordinárias perder ou esquecer alguma coisa pelas ruas da cidade, porque acabarão devolvendo sem exigir que a posse seja comprovada. O sistema, ou coisa que o valha, tem o curioso hábito de funcionar – os trâmites legais, os ritos oficiais conduzem de fato ao lugar que se pretende chegar. São coisas assim que passam a Elsie uma sensação de tranquilidade, um sentido de segurança, de ser respeitada como ser humano, de ser deixava viver, sem atritos, num mecanismo social de rodas bem azeitadas, dentro das falibilidades humanas. Uma cidade maternal e poderosa, que deixa a cronista mais rica, como simples cidadã de passagem.

Há certamente muita coisa a dizer sobre essa terra em que barulho é palavrão, onde pessoas agradecem por termos falado com elas e os médicos acham que tomamos remédios demais.  Pelas crônicas de Elsie, também é possível acompanhar eventos importante para a Inglaterra no final dos anos 70 e começo dos 80, como o casamento da Princesa Daiana, a disputa pelas Ilhas Falkland, ou os atentados do IRA – onde é que se vive em paz, afinal? São frequentes suas observações sobre o clima, que é mesmo bastante singular em Londres. Por lá, o inverno é um longo túnel de seis meses, com raros dias de sol. Ah, e a atrapalhação que dá na cabeça dos ingleses o fenômeno do verão! A tudo Elsie está atenta, e registra com emoção, poesia, luz.

Os dois mundos de Elsie

Mas mesmo no simpático beco em que morou, mesmo quando se mudou para Chelsea, Elsie ainda se lembrava daquela gente triste e pobre da sua terra. As mortes de Vinicius de Moraes e de Garrincha lhe chegam pelos jornais. É impossível não se recordar do Brasil, mas a cronista não briga mais com as lembranças, diz para virem como quiserem, se quiserem machucar, que machuquem, se forem de doer, que doam. Também há saudades das mais prosaicas: não há, por exemplo, o que se compare em Londres a um bom e honesto chuveiro brasileiro. São dois mundos estes em que Elsie partiu a sua vida, e agora tenta unir as pontas, com dificuldade…

Na medida em que reconstrói o seu cotidiano, os detalhes da sua casa, da sua rua e da sua vida na capital da Inglaterra, chamam a atenção, pela grande ternura, as crônicas escritas sobre a sua neta Juliana, nascida brasileira, mas que lá passava alguns dos primeiros anos de sua vida. Os passeios que Elsie faz com Juliana, as tardes que passa com ela, estão entre as páginas de maior sentimento no livro. Nela, a cronista encontrava carinho, meiga severidade, chão emocional para os seus pés cansados. São os mistérios todos do mundo, deste e do outro, da criação, da espécie, que se renovam em cada recém-nascido. Em Juliana, sentia que os ciclos e vida se repetem, e então procurava costurar colchas de retalho da sua emoção. Textos lindos!

Que não nos enganemos e nem permitamos que esse talento fique esquecido: Elsie Lessa não deve nada, em suas crônicas, às de Clarice Lispector ou de Rachel de Queiroz.

Henrique Fendrich

ponte rio londres

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