Triste gerúndio [Rubem Penz]

Posted on 08/01/2016

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Rubem Penz*

“Eles se separaram” pode ser uma frase triste, e às vezes nem isso.       “Estão se separando” é que é triste mesmo. (Rubem Braga)

Ao ler esta passagem do velho Braga me peguei a pensar em como são mais sofridas as ações e reações negativas quando no gerúndio. Como se vê, “separar-se” pode nem ser má notícia – sabe-se lá o quanto de sofrimento represado não encontrou fluidez com o rompimento. Porém, o cronista reconhece que o processo, mesmo quando depurador, é bem triste. Outros exemplos:

“Ele está morrendo” é muito mais triste do que “ele morreu”.

“Ela está acabando comigo” é muito mais dramático do que “ela acabou comigo”.

“Estamos chorando sem parar” é muito mais trágico do que “choramos sem parar”.

A irrefreável reverberação gerundiana não só nos coloca dentro do acontecimento, como usurpa seu desfecho. Se morreu, morreu, fim. Se acabou, acabou, pronto. Se choramos, que tenha sido até secarem as lágrimas! Dali, bola ao centro. Mas se a coisa não cessa, aí já é sacanagem. Sofrer no gerúndio beira o masoquismo.

O melhor tempo para conjugar tristezas é o passado, sem dúvida. Por mais danoso que seja o que houve, o que sentimos ficou para trás. Sofrimento no presente, se inevitável, também me serve: é ruim, dói, nos custa. E encaramos. O futuro, para o mal e para o bem, sempre será uma abstração (apesar de conhecer sofredores clássicos que se antecipam). Referir lamentos no gerúndio, para além de dramático, quase rouba a esperança.

Almas pesadas, crivadas de culpa e dor, nunca sofreram, sofrem ou sofrerão – estão sofrendo. Carregam a dor consigo nos bolsos, nas horas, no andar arrastado. Muitas vezes, como diz o samba de Arnaldo Antunes e Marisa Monte, a dor “é o meu troféu, é o que restou, é o que me aquece sem me dar calor”. Tristeza no gerúndio já é de estimação. Quem escolhe lamentar-se no gerúndio pode, em casos patológicos, estar auferindo prazer.

E a alegria? Bom, parece que para ela vale esticar o tempo. Quem não aprecia estar namorando, estar sorrindo, gostando, ganhando, gozando? Assim, em pleno processo. Sem data para parar! Ah, maravilha… Mesmo que, aos olhos mais realistas, seja prenúncio de apenas estarmos nos iludindo. Triste gerúndio.

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro o Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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