O peru da Rogéria [Daniel Cariello]

Posted on 07/01/2016

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Daniel Cariello*

Era o réveillon de 1984. Ou o de 1985. Tenho dúvida na data porque passávamos quase todas as viradas de ano no apartamento das tias avós, que moravam em plena Avenida Atlântica, em frente à praia de Copacabana.

O rito anual era seguido à risca: jantávamos em família, assistíamos à corrida de São Silvestre, que naquela época acontecia à noite, com meu pai e meu avô prometendo participar da edição seguinte, e descíamos à praia para ver os fogos de artifício. Meus irmãos e eu fazíamos sempre questão de levar à areia os coloridos balões de ar infalivelmente presenteados pelo vizinho, cabeleireiro que cuidava das madeixas de incontáveis artistas e personalidades, famoso por suas habilidades com a tesoura e por suas homéricas festas de fim de ano.

Já estávamos reunidos à mesa quando uma senhora maquiada, usando um exuberante vestido, abriu a porta e entrou, com os braços levantados, os indicadores apontando para o alto e a boca aberta, em posição de alguém que parecia prestes a entoar “adeus ano velho, feliz ano novo” a plenos pulmões.

Ficamos admirando a aparição, meu avô com um pedaço de bacalhau espetado em um garfo e parado em frente à boca, minha avó servindo vinho sem se dar conta de que a taça já transbordava, a família estática, como uma exposição de Madame Toussaut.

A invasora só percebeu que entrara no apartamento errado quando chegou ao meio da sala. Sem perder o rebolado, rodopiou como um Michael Jackson e saiu pela mesma porta que entrara. Uma das tias quebrou o silêncio.

– Gente, era a Rogéria, a travesti?
– Acho que sim – Respondeu a outra.

Sem entendermos o ocorrido, retornamos ao jantar. Os adultos concordavam que, tomando por aquela entrada triunfal, as festas do vizinho deviam fazer jus à fama que possuíam.

Quando já atacávamos a sobremesa e nos preparávamos para assistir à largada da corrida, alguém tocou a campainha. Era novamente a Rogéria, trazendo rosas, que combinavam perfeitamente com seu sorriso meio constrangido, e um prato, coberto por um papel.

– Oi, pessoal, lamento ter entrado sem bater. Me enganei de porta. Pra me desculpar, trouxe essas flores e um pouco de peru. Está ótimo. Um abraço a todos e um feliz ano novo!
– Feliz ano novo! – Respondemos, em um coro descoordenado.

Já saciados, ninguém tocou no peru da Rogéria. Mas as rosas foram ofertadas a Iemanjá, pouco depois.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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