O vinho 2016 anos depois [Marco Antonio Martire]

Posted on 06/01/2016

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(Imagem: Marcelo Oliveira)

Marco Antonio Martire*

Saiu no jornal que pesquisadores e cientistas estariam tentando recriar geneticamente o vinho dos tempos bíblicos. Se obtiverem sucesso nesta empreitada, aqueles que gostam da bebida terão em teoria disponível no mercado vinhos cujas características foram apreciadas por inúmeras figuras históricas, entre elas até mesmo Jesus.

O selo de autenticidade será obviamente dado pela ciência.

Tal qual em Jurassic Park, filme em que os personagens convivem com dinossauros recriados à perfeição pela genética, enólatras do mundo inteiro poderão sentar-se em uma mesa como amigáveis convivas e degustar delirantemente um vinho que emulará a atmosfera de cenas antológicas do velho e do novo testamento. Quem durante o brinde de uma janta inesquecível irá reprimir a sensação de sentir-se feito os apóstolos na Santa Ceia? Entre nós haverá aquele que só acredita vendo, haverá também aquele que renega o parceiro, haverá quem se venda em troca de segredos. In vino veritas.

O simulacro sempre foi um fetiche do mundo ocidental e desta vez será difícil evitá-lo nos corações e mentes dos bêbados. Embalados pelo poder embriagador de vinhos milenares, imitaremos trajes e costumes de nossos antepassados, autorizados pela ciência e pelo mercado.

Não há limite para nossos anseios de consumo.

É uma lógica poderosa: segundo ela somos merecedores de todos esses prazeres, afinal a vida é difícil e trabalhamos duro, derramando o suor de nosso rosto. Prezo pelas reuniões sociais com a mesma força com que me levanto todos os dias para o trabalho, isto quer dizer que a vida é curta. Aproveitemos.

Virá então o vinho dos tempos gloriosos de Alexandre, dos tempos do invencível Aquiles, será a vez do lendário vinho do rei Artur. Alguém provará beber o vinho predileto de Jack, o estripador. Talvez sozinho, fechado em uma adega escura e proibida.

É certo que nada se cria, tudo se copia. E os publicitários terão à mão este slogan bacana (graças a mim?) quando buscarem soluções para as demandas mercadológicas dessas vinícolas santas. Ganharão muito dinheiro e prêmios em festivais. E garrafas de safras reservadas com nomes como Milagre Prata ou Ouro.

Alguns dirão que ninguém segura a ciência. Ninguém segura o mercado. Ninguém segura o homem. E aqui não critico aqueles reunidos em festa, está escrito que Jesus também participava das suas. Até ousou prolongar a alegria de uma delas transformando água em vinho nos barris. Deixa comigo, ninguém vai embora que eu dou um jeito nisso! Fosse hoje, seria a hora de uma vaquinha entre os bebuns e um deles seria despachado em missão até o mercado mais próximo. Mas Jesus estava com pressa e não teria feito o que fez se a festa não estivesse muito boa. Se o vinho não fosse muito gostoso.

Foram conferir os largos barris de água e os barris estavam cheios de vinho. Chegamos neste ponto da história. Algumas sementes encontradas perto de templos ancestrais destruídos e olha que recriamos aquele vinho de outrora.

Beba com moderação.

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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