Eduardo Portella e as dimensões da crônica

Posted on 05/01/2016

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Em 1958, o crítico literário Eduardo Portella, hoje imortal da ABL, publicou a coletânea de ensaios “Dimensões I” (Agir), que inclui um sobre a crônica chamado “A cidade e a letra”. À época vinham sendo lançados muitos livros de crônicas, e Portella aproveita esse momento de expansão do gênero, que saia então de sua condição jornalística, para tentar avaliar “as fronteiras desse território flutuante que se chama crônica”. O crítico ressalta que ninguém, até então, havia delimitado com nitidez os contornos do gênero. E pode-se dizer que, quase 60 anos depois, ninguém ainda conseguiu.

A crônica e o conto

Para Portella, a migração do jornal para o livro transformava a crônica em obra de arte literária e contribuía para fazer dela um gênero literário específico. A noção de autonomia da crônica, no entanto, é vista como relativa, pois as suas características não são a ordem ou a coerência, mas exatamente a ambiguidade, dificultando assim uma conceituação mais independente.

O crítico ressalta que, ao contar uma história e se comprometer cm elementos de domínio novelístico, a crônica “se transforma num verdadeiro conto”. E afirma que isto se verifica em textos de livros de crônicas da época, como “A cidade e a roça”, de Rubem Braga, “Fala, amendoeira”, de Drummond, “Barro de município”, de Ribeiro Couto, e “A cidade e os dias”, de Ledo Ivo. A aproximação com o conto é um dos problemas ainda não resolvidos pela crítica literária, em grande parte por negligenciar o suporte original de divulgação da crônica.

A crônica e o ensaio 

Isso se torna ainda mais visível quando Portella tenta aproximar a crônica do ensaio, citando como exemplo Gustavo Corção e seu livro “Dez anos”, no qual destaca o timbre opinativo e por vezes até dogmático. Considera, ainda, “muitas vezes impossível uma separação radical entre a crônica e o ensaio”, o que só seria possível ao considerar o tamanho do texto. O que não ocorre ao crítico é a proximidade deste estilo de crônica a outro, bem afeito ao jornalismo.

Para melhor compreender o tipo de texto que é feito sob a rubrica de crônica, é fundamental avaliar o seu contexto original de publicação. No jornal se publicam, normalmente na mesma página da crônica, textos de caráter opinativo chamados de “artigos”. Não é o ensaio, mas este gênero típico do jornal que, invariavelmente, influencia o estilo do cronista. O jornal, contudo, costuma ser visto pelos críticos literários como mero entrave para a realização da crônica como objeto estético, razão pela qual sequer se cogita a influência do artigo dentro do texto.

A crônica e o poema em prosa

Tem razão o crítico, no entanto, quando diz que as características deste tipo de texto são as mais ostensivamente hostis à índole da crônica, fortemente marcada pelo descompromisso e pelo tom intimista do escritor. Por vezes, a crônica provoca uma emoção lírica, o que constitui a terceira dimensão que Portella atribui às fronteiras do gênero: o poema em prosa. Citando os casos de Braga, Drummond e Ledo Ivo, Portella afirma que o enriquecimento poético é uma maneira das mais eficazes de fazer a crônica “fugir ao seu destino de notícia”.

Para ele, afinal, a crônica é “um gênero literário que sai do jornal”, onde está sujeito a diversas limitações. Apegar-se ao “fato do dia”, em tom mais objetivo e coloquial, com narrativa que se assemelhe a “simples bate-papos”, é visto pelo crítico como empecilho à transcendência do gênero. Cita como este o caso de nomes como Henrique Pongetti, autor de “Direito e avesso”, de Luís Martins, com “Futebol de Madrugada”, e até mesmo de Sérgio Porto, com “O homem ao lado”. Estes seriam nomes que, não raro, se mostravam “exclusivamente comprometidos com o repertório de notícias que agita a vida da cidade”.

A crônica e o jornal

Embora seja verdade que o cronista diário precise se valer de temas com menor poder de transcendência literária, uma teoria realmente honesta sobre a crônica precisa reconhecer que a relação do gênero com a agenda noticiosa é uma de suas características. É possível que isto não seja de agrado para os críticos literários, mas mesmos estes reconhecem que se trata de um gênero fronteiriço, de modo que a sua conceituação não deve se limitar à literatura. Nunca se chegará a uma definição dos contornos da crônica sem considerar o ambiente do jornal.

O crítico também aponta algumas “estratégias” dos cronistas para escapar à transitoriedade do jornal. É certo que, embora seja publicado em um veículo efêmero, e seja diretamente por ele influenciado, o cronista tem consciência de que faz um texto muito diferente daquele que o leitor encontra nas demais páginas do jornal. E se valerá de recursos dos mais variados para chamar a atenção do leitor. Primeiramente, o leitor de jornal. Apenas no momento de migrar para o livro é que ele se preocupará com as crônicas que menos sofreram a ação do tempo.

Há também no ensaio de Portella uma curiosa distinção entre cronista e escritor, sendo que, para ele, é o escritor o responsável pela categoria do cronista. Diz ainda que todas as crônicas que perduraram foram sempre assinadas por um grande escritor. Não se depreende o que ele pensa de Rubem Braga, que, se foi escritor, o foi unicamente por ter sido cronista. Não admira que também não faça nenhuma concessão ao jornalista, atividade de boa parte dos cronistas.

Eneida, encantadoramente plástica

Portella destaca ainda o apego provinciano dos cronistas pela sua metrópole e mostra uma especial admiração pela cronista Eneida, infelizmente hoje pouco lembrada. Para ele, Eneida conheceria um dos segredos da crônica, o de ser encantadoramente plástica. Seus textos são “uma deliciosa recomposição artística do passado, através de uma utilização como que proustiana da memória”. Por fim, termina lembrando que ainda não existe uma teoria da crônica que seja mais ou menos coerente e sugere que a publicação frequente de livros de crônicas tem o mérito de levantar o debate sobre o problema do gênero.

Uma teoria da crônica

Continua não existindo uma grande teoria da crônica, e muitas vezes o que se sabe sobre a crônica não é mais do que a repetição de conceitos de críticos antigos. Parece que ainda não existe muita gente que pense o gênero para além de seu conteúdo, relacionando-o ao espaço que ocupa. Dentro do espaço delimitado que lhe dão, sujeito às rotinas jornalísticas, o cronista se vale realmente de gêneros literários dos mais variados, como o conto ou o poema em prosa, mas também outros distantes da literatura, especialmente o artigo. O estilo do cronista é, em grande medida, a forma com que ele decide preencher o espaço que recebe. É a partir dessa ideia que se pode pensar na autonomia de um gênero formado pela mistura de outros.

Henrique Fendrich 

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