Expectativas, presunções, ideias [Raul Drewnick]

Posted on 03/01/2016

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Raul Drewnick*

Por que esperar verdades de um poeta, se ele pode nos dar coisas muito mais fascinantes?

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Ser Machado de Assis por um dia, por uma hora, por um parágrafo, por uma entrelinha…

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Quem lê Dostoiévski, Shakespeare, Maupassant, Tchekhov e persiste em ser escritor, ou é presunçoso ou muito tolo.

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Quando fica um dia sem escrever, o escritor descobre que o mundo sente o mesmo que sente nos dias em que ele escreve: absolutamente nada.

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Certos escritores, quando dizem que vão parar de escrever, deveriam ser levados por uma comissão de leitores a um cartório, para formalizar o compromisso, antes da queima de fogos.

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Se admitirmos que Shakespeare foi um escritor, como nos definiríamos?

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Aquele que sobrevive à morte do amor não merecia tê­lo vivido.

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O azar do nosso semelhante é que quase sempre ele é igual a nós.

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Viver é a designação genérica que se dá a atividades díspares como compor uma sinfonia ou ir fazer exames de sangue num laboratório, numa sexta de manhã.

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O problema dos proparoxítonos é que alguns são insuportavelmente esdrúxulos.

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Viver nem sempre é tão sem sentido quanto parece. Às vezes é pior.

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Continuo insistindo com a literatura. Não sei escrever, mas também não sei fazer nenhuma outra coisa.

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A vida quase nunca atinge a intensidade do romance. Falta-­lhe um pouco mais de talento.

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Precisei escrever todos os dias, durante cinquenta anos, para descobrir que não deveria ter começado nunca.

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Um homem sábio não se atira num poço. Um tolo enfeitiçado pelo amor se atira três vezes, se não morrer nas duas primeiras.

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Nada como o amor para transformar rapidamente um bom homem num péssimo poeta.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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