Ano bom [Madô Martins]

Posted on 01/01/2016

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Madô Martins*

Tenho comigo que o símbolo do Ano Novo deveria ser um grande sinal de interrogação. Ontem, entre fogos e brindes, pisamos a soleira de 2016 com um leve esboço do que serão os próximos 366 dias (bissexto!), mas sabendo de antemão que imprevistos acontecem, como obras do acaso, ocorrências surpreendentes que nos tiram do rumo, tropeços na saúde ou nas finanças… Certeza, mesmo, só o que passou. E olhar para as festas de Ano Novo do passado é mais ou menos como observar o presépio de todo Natal: sabemos o que encontrar ali, mesmo assim, nos encantamos.

Vivi muitas passagens de ano na casa da avó paterna. Uma pequena multidão de tios e primos reuniam-se à órbita da matriarca para a ceia. Nós, os pequenos, brincávamos pela sala de visitas, enquanto a mesa era posta na de jantar e os últimos preparativos ocupavam as mulheres na cozinha, de onde emanavam perfumes deliciosos.

A avó era a única da família a possuir um aparelho de tevê, ainda em preto e branco, e a esperada refeição só acontecia após a transmissão da corrida de São Silvestre pelas ruas de São Paulo, que terminava à meia-noite. Lembro de sempre ficar dividida entre a curiosidade de saber quem havia vencido e o prazer de abraçar e receber abraços, enquanto lá fora explodiam fogos de todos os tipos, saudando o que então chamávamos de Ano Bom.

Logo as taças de champanhe eram esvaziadas e os lugares ocupados à mesa, enfeitada com toalha branca e louça especial para a ocasião. Só em dias assim, a cristaleira era aberta, deixando à mão cálices delicados e uma poncheira, que toda casa de bem possuía para servir o ponche, mistura de vinho e frutas picadas que, em regime de exceção, nos deixavam provar.

A ceia durava horas, e acredito que os primos e eu não ficássemos acordados até a sobremesa, porque nenhum registro disso restou na memória. No dia seguinte, estávamos todos de volta para o almoço, as mesmas toalha e louça de festa. Antes de a avó nos chamar para comer, os homens faziam a tradicional excursão ao quintal: escalavam as árvores frutíferas e enchiam bacias de goiabas brancas e rosadas, sujando um pouco as roupas, mas orgulhosos do feito.

O que eu mais gostava, no entanto, era quando, concluído o almoço, as tias e minha mãe tagarelavam na cozinha, cuidando da louça, e os tios e meu pai permaneciam à mesa, bebericando cerveja e saboreando nozes, avelãs, amêndoas. Os primos iam brincar lá fora, mas as meninas ficavam em volta dos mais velhos, ouvindo sua conversa sem fim e ganhando, vez ou outra, uma avelã descascada (seria um coração?), uma noz partida (um cérebro?), meia amêndoa… sem esquecer as castanhas e os bombons (só para nós, porque não combinavam com cerveja).

Até a hora do lanche, os homens tomavam conta da sala de jantar. E uma imagem dessa posse temporária permanece nítida ainda hoje: sobre a toalha branca, diante de cada um, ia se formando um montinho de cascas de todos os tipos que não parava de aumentar…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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