La tour Montparnasse [Daniel Cariello]

Posted on 31/12/2015

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Daniel Cariello*

Como fazem todos os anos desde que se conhecem, eles viajam pra Paris e passam o réveillon no último andar da torre Montparnasse, de onde têm uma visão privilegiada da cidade. Absortos, observam a neve que cai em grossos flocos. Até que a contagem regressiva coletiva os traz de volta ao mundo real. Eles se olham nos olhos, sem nada dizer.

– Dix!

Ele pensa: Não acredito. Outro ano inteiro passado com essa aí. Quando esse inferno vai terminar?
Ela pensa: O que eu estou fazendo ao lado ele? Isso é autopenitência.

– Neuf!

Ele pensa: O Greg está passeando de barco no Caribe. O Vincent faz uma festa de arromba na casa dele.
Ela pensa: Por que deixei de ir ao jantar na casa da Véronique?

– Huit!

Ele pensa: No restaurante ali embaixo eles estão servindo foie gras e champagne. E eu aqui com essa mercadoria de terceira qualidade na minha frente.
Ela pensa: Vi na tevê que eles esperam 500 mil pessoas no Champs-Élysées. Pelos menos umas 400 mil devem ser mais interessantes do que este cidadão.

– Sept!

Ele esboça um sorriso com o canto dos lábios.
Ela levanta a sobrancelha em complacência.

– Six!

Ele pensa: Batom no dente. Ela sempre tem batom no dente. É medonho.
Ela pensa: O hálito dele hoje está ainda pior. O bafo do faraó.

– Cinq!

Ele pensa: E esse vestido vermelho? Que coisa mais brega. Tá um tonel e fica usando roupa colada.
Ela pensa: Todo ano ele coloca esse terno xadrez e essa camisa de listras. Nunca vi alguém com tão mau gosto.

– Quatre!

Ele pensa: A meia dela está rasgada. Tem banha escapando pelo furo.
Ela pensa: O corcunda de Notre-Dame jogou fora esse sapato que ele está usando hoje.

– Trois!

Ele respira fundo.
Ela suspira.

– Deux!

Ele pensa: Se ela caísse daqui de cima, quase sem querer, pareceria suicídio.
Ela pensa: Intoxicação com ostras estragadas só mata 48 horas depois. Dá tempo de eu me mandar pra outro canto do mundo.

– Un!

Ele pensa: Tomara que ela desapareça quando 2016 começar.
Ela pensa: Tomara que ele desapareça quando 2016 começar.

– Bonne année!!!

Ele a pega nos braços, como em um passo de tango.
Ela vira a cabeça pra trás.
Ele a beija como nunca e aperta sua bunda.
Ela dá uma reboladinha.

Ele diz: Vamos embora dessa festa chata.
Ela diz: Só se for pra nossa cama.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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