Fluxogramas [Elyandria Silva]

Posted on 31/12/2015

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Elyandria Silva*

Fazer fluxogramas é arte de administrador. Uma seta indica uma tarefa, uma movimentação de um lugar para outro. Um quadrado significa controle, de realidade, se é que isso é possível. A letra D quer dizer uma demora, ou atraso, mas nunca é tarde. O triângulo é uma parada, quase definitiva, talvez uma morte. Fluxograma é um gráfico que representa o fluxo ou a sequência de rotinas simples. Tem a vantagem de indicar, visualmente, como um processo acontece, quem está envolvido e quem são os responsáveis por fazer. Por isso fluxogramas me encantam, não só porque sou pessoa metódica, mas porque eles indicam os caminhos a percorrer, as opções desenhadas, com traços precisos, para onde se deve ir e o que fazer nessa ou naquela situação. Basta a escolha. Um dia descobri que fluxogramas são essenciais para a vida, que eles trazem uma magia teórica e acadêmica perceptível apenas para quem contraria as multidões que sempre fazem tudo igual, que não mudam, que se perdem na mesmice de rotinas repetitivas.

Existe um mar de possibilidades e sonhos invisíveis na troca do último número que acontece a cada ano. O estrondo de portas, o deitar e levantar, o arrastar de cadeiras, o pousar diário de xícaras, o pentear lento dos cabelos, a pose elegante do pássaro no meio fio, um gatinho perdido que se embrenha numa fresta de construção. É assim que dias iguais voltam a cada ano. Muito daquilo que os olhos decoraram não muda. Só que há um timbre diferente em cada ano que inicia, uma garimpagem por novas aventuras, uma ânsia por novos caminhos e por alternativas mágicas que nos leve a criar uma fascinante Metodologia da Felicidade e, dentro desse método, desenhemos fluxogramas bem delineados, com setas que indiquem alegria, com caminhos prontos para a solução de todos os problemas, com os símbolos que eliminem todos os males e as tristezas. A análise certeira, o enterro da dúvida. Assim eu desejaria que fosse meu 2016! Assim eu desejaria que fosse o 2016 de todos, dos que estão nesse mundo, dos que partiram para outro e dos que estão para chegar, porque estamos todos num mundo só, embora separados por esferas com diferentes energias.

Humanidade e amor para com os outros, essa é a verdadeira essência do ser humano. Se alguém morre de fome lá na África eu sou afetada aqui, se alguém chora e sofre ao meu lado isso me machuca. Não é “Eu sou” e sim “Nós somos”. Em 2016 é certo que nos perderemos no mar de vozes que clamam por mais amor, amor e amor, só isso que o mundo precisa. Fluxogramas de amor permitirão escolhas de vidas mais verdadeiras e menos descartáveis e mundanas. A metodologia para amar cada vez mais e ser feliz é fácil. O resto é apenas o resto.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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