Sabino responde se “O Homem Nu” é conto ou crônica

Posted on 29/12/2015

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Da coluna”Dito e feito”, escrita por Fernando Sabino, publicada no jornal O Globo e reproduzida em outros veículos no dia 22.03.1987.

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Outra leitora intrigada com O Homem Nu é Jandira Lorena Campos, estudante da 8ª série ginasial de Jacarezinho Paraná – esta por motivos menos intrigantes: quer saber simplesmente se é um conto ou uma crônica. Não se trata de “classificar”, diz ela com toda a razão: trata-se de esclarecer uma dúvida, pois ora aparece como conto (“Os Melhores Contos”, editora Record) ora como crônica (“Para Gostar de Ler”, editora Ática). A professora diz que é crônica. Eu mesmo já disse que é conto. Em que ficamos?

Ficamos, Jandira, naquela já célebre definição do Mário de Andrade, segundo a qual “conto é tudo o que o autor chama de conto”. Ao que eu poderia acrescentar: e muitas vezes o que se chama de crônica. A confusão vem de longe, e transcende a imprecisa classificação dos gêneros literários. Sendo estes trabalhos de pequena extensão divulgados através de jornais e revistas, sua designação se sujeita à moda que prevalece em cada época.

Houve uma, quando comecei a publicar, que impunha a denominação de “seção” a tudo que aparecesse regularmente com o nome do autor. A minha já se chamou “Entrelinha”, “Circunstâncias”, “Diário do Rio”, “O Destino de Cada Um”, “Damas e Cavalheiros”, “Aventura do Cotidiano”, etcétera, nos diferentes jornais e revistas que freqüentou. (Chamava-se “Sala de Espera” na Manchete que publicou O Homem Nu pela primeira vez) Com o correr do tempo a denominação de crônica, a partir das que tinham conotação literária, acabou se impondo às demais matérias jornalísticas assinadas: a crônica social, a crônica esportiva, a crônica política, a crônica policial acabaram sufocando a crônica propriamente dita.

Com o jornalismo moderno, surgiu a coluna: todo mundo se tornou colunista, não sei se por influência do “columnist” americano ou do Samuel Weiner: pelo menos me lembro dele no “O Jornal” como precursor do colunismo entre nós, às gargalhadas porque os jornais do interior que transcreviam sua coluna invariavelmente publicavam “este comunista está seguramente informado…” – numa época em que se afirmar comunista era cadeia na certa.

Não chegaram a fazer de mim um comunista, mas colunista fiquei sendo desde então. Para todos os efeitos, e até ordem em contrário, isto que o leitor está lendo atualmente é a minha coluna.

Digamos, pois, Jandira, que chamada de crônica ou de conto, “O Homem Nu” não passa de uma história. Só peço que seja história mesmo – nada da antipática e insustentável estória em que andam insistindo por aí – mas isso já é outra história.

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Fernando Sabino

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