Medo do doido [Cyro de Mattos]

Posted on 29/12/2015

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Cyro de Mattos*

A cidade tinha seus doidos mansos e perigosos.  Os mansos só faziam divertir quando eram provocados. Os perigosos podiam até ferir uma pessoa com uma pedrada. O preferido da turma entre os doidos mansos era o  Mula-Manca, que só andava bêbado, não parava de falar asneiras na rua do comércio. Não agüentava ficar em pé numa só perna quando estava bêbado.  O corpo balançava para lá, para cá, às vezes ele caía no passeio. Levantava-se e saía andando com o corpo desequilibrado. Parecia uma mula mancando no passo.  Daí o apelido dele.

Gostava de provocar Mula-Manca para dar boas risadas com as besteiras que ele fazia. Eu dizia “Mula-Manca!”, ele disparava um bocado de bobagens pela boca bêbada. Tentava equilibrar-se numa só perna, para dar a entender que não estava bêbado, mas a queda era inevitável.

Doido perigoso era o Abacate, ficava irascível quando era chamado pelo apelido. Magro, baixo, usava um chapéu de palha enterrado na cabeça pequena. Duda disse que ele tinha esse apelido porque foi flagrado roubando galinha no quintal do fazendeiro Benjamin Andrade. Jurou inocência na delegacia, declarando ao delegado Arnaldo Gigante que estava no quintal do fazendeiro apanhando uns dois  abacates maduros no abacateiro pra comer com açúcar porque tinha dois dias que passava fome..

O soldado Hilário, que fazia a ronda noturna naquele trecho de rua onde ficava o casarão do fazendeiro, não gostou da mentira que o doido inventara, como se não tivesse sido pegado em flagrante com algumas galinhas dentro do saco grande. Horas depois o soldado Hilário deu uma surra nele na cadeia com o cinturão grosso porque além de ladrão de galinha ele era um grande mentiroso.

Estava jogando uma partida de futebol com os amigos lá da rua no campo onde a Prefeitura ia fazer uma praça. Era um campo barrento, sem grama, com muitos buracos. De vez em quando a bola era chutada com força e tomava a direção do rio. Rolava pelo barranco e demorava de ser achada lá embaixo no rio para que o jogo fosse recomeçado.

Numa dessas buscas da bola, que acabara de cair no rio, avistei com os outros meninos o doido Abacate. Ele vinha caminhando pela beira do rio. Já estava se aproximando do campo de futebol. O jogo havia sido interrompido, os jogadores estavam esperando que algum menino achasse a bola lá embaixo no rio. E voltasse com a bola para  o reinício da partida, entre o Vasco da Rua do Quartel Velho e  o Flamengo da Rua do Lopes. De repente, sem ter medo do que pudesse acontecer, Duda  gritou:

– Abacate! Um, dois, três! Venha me pegar dessa vez!

De imediato os meninos correram para todos os lados. O doido pegou a pedra e saiu atrás de mim como um bicho enfezado, bufando e gritando. Corri com todas as forças que os pulmões pudessem ter, disparando em direção da rua do comércio. Cheguei a me bater em gente grande quando dobrei o beco, correndo como um raio para chegar lá em casa o mais rápido, o que felizmente consegui com o doido Abacate no meu encalço.  Fiquei algumas horas dentro de casa. Minha mãe estranhou que ficasse em casa durante quase duas horas  num dia de feriado quando então eu não dispensava de ficar brincando  com os amigos em algum canto da cidade.

Disse à minha mãe que o doido Abacate estava com uma pedra lá no beco querendo atirar em mim porque Duda tinha lhe chamado  pelo apelido que ele não gostava. Ela foi até o beco e enfrentou o doido. Ameaçou levar o caso ao delegado Arnaldo Gigante, se ele não fosse embora e  esquecesse de mim. Ele foi embora a muito custo, saiu me  xingando, dizendo que um dia ia me pegar pra eu pagar tudo  que tinha feito com ele.

Era melhor ficar em casa por algum tempo até o doido passar a raiva e se esquecer de mim definitivamente. Não saí de casa durante uma semana. E, quando resolvi encontrar-me com os amigos para alguma aventura, andei cauteloso, olhando para todos os lados, com medo que o doido Abacate saísse de algum lugar escondido  e viesse me fazer uma malvadeza. .

Lamentava que aquele doido tivesse me escolhido entre os meninos  para se vingar  da mangação  que o Duda tinha feito quando lhe chamou  pelo apelido. Como iria fazer agora para jogar bola com os amigos no campo da Praça Camacã, durante as férias escolares do fim de ano que já estavam bem próximas? Soube depois que o doido Abacate passava por aquele caminho da beira do rio todos os dias, rumo à rua do comércio

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*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil . Na RUBEM, Cyro de Mattos escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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