Sueño mio [Daniel Cariello]

Posted on 24/12/2015

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Daniel Cariello*

Acordei com o anúncio do comandante.

– Atenção, senhores passageiros, estamos arremetendo, o aeroporto da Cidade do México está fechado devido à falta de condições climáticas. Vamos aterrissar em Querétaro.

Pronto, lascou, é hoje que viro farofa mexicana, pensei, enquanto me segurava na cadeira, que sacudia como liquidificador, e me lembrava dos pobres Mamonas Assassinas, a primeira associação que me vem à cabeça quando escuto a palavra “arremeter”.

Procurei manter a calma e já estava me achando bem sucedido na tarefa. “Sou quase Ghandi”, disse a mim mesmo, quando o vizinho da poltrona da frente me trouxe de volta à realidade, pedindo que parasse de dar bicudos na sua cadeira, por el amor de Díos!, pois a situação já não era boa e meus chutes não colaboravam nem um pouco em melhorá-la.

Olhei pela janela e vi que estávamos metidos em uma grande nuvem. Pensei em pedir pro piloto ficar rodando em volta dela, pra ver se conseguia dispersá-la, mas a telinha de meia polegada do sistema de entretenimento já mostrava que seguíamos na rota para Querétaro, cidade da qual não havia ouvido falar até a transferência do Ronaldinho hang loose para o time local. O dentuço abandonou o pão de queijo do Galo em prol da pimenta de Querétaro há uns dois anos. Depois, abandonou a ardência mexicana em prol do bronze carioca do Fluminense. Pouco tempo mais tarde, abandonou tudo e ficou só com o bronze mesmo, que essa história de futebol já tava cansando.

Mas o meu avião estava quase caindo e eu fico aqui falando no Ronaldinho, nada a ver! Então, aterrissamos em Querétaro e o piloto já queria decolar de novo.

– Senhores passageiros, permaneçam nos seus lugares. Estamos aguardando autorização para levantar vôo novamente em direção à Cidade do México, onde as condições climáticas já estão mais favoráveis.

Eu não queria mais decolar, já estava no lucro de ter chegado ali e me lixava de verde e amarelo (e vermelho e branco) para as condições climáticas na capital mexicana, pois meu destino era Guadalajara, onde uma feira de livros e o estádio Asteca me aguardavam.

Asteca, para quem não se lembra, é a mítica arena que viu desfilar o escrete de 70 (referir-se ao time de 70 é a única ocasião aceitável para utilizar a palavra “escrete” nos dias de hoje, então, aproveito), equipe que instaurou nos mexicanos, segundo meu vizinho de poltrona, uma paixão inabalável não apenas pelo futebol brasileiro, mas por tudo relacionado ao nosso país, apesar do vazari futebolístico recentemente aplicado pelo Gaúcho. Eles adoram Roberto Carlos (ok, nós também, pelo conjunto da obra) e Nelson Ned (opa, inclua-me fora dessa), a quem chamam de “gigante da música”, não sei de de maneira irônica, pois meu pobre portunhol não permite detectar essas sutilezas na linguagem oral.

– Senhores passageiros, vamos descer em Querétaro, não temos autorização para decolar novamente. A companhia aérea vai oferecer transporte para a Cidade do México.

Que se dane o transporte! Queria ir pra Guadalajara, a 200 quilômetros dali. E tanto fiz que encontrei dois outros desventurados brasileiros indo ao mesmo destino. Estavam alugando um carro e pedi para ir com eles. Como sempre, me ofereci para conduzir se necessário. Como sempre, apaguei no banco de trás depois de 5 minutos.

Acordei a primeira vez quando paramos pra comer em uma birosca de beira de estrada. Esfregando o sono, pedi um sanduíche de queijo e presunto e mordi em cheio algo muito ardido.

– Hay picante en este sanduíche?
– Si, claro.
– Ai ai ai ai!
– Si, hay.
– Ai ai ai ai!
– Hay, señor. Quieres más?

Acordei a segunda com minha companheira de viagem me cutucando.

– Tem moedas aí?
– Tenho – Peguei umas no bolso e estiquei pra ela.
– Vamos pagar mais uma caseta de cobre.

Abri o olho, vi realmente uma placa escrita “caseta de cobre” e um valor para cada tipo de veículo. No meu estágio mezzo sonâmbulo, deduzi se tratar de um pedágio. Ou não. Virei pro lado. Queria dormir mais, para despertar do primeiro sonho, aquele do avião arremetendo. Tava tudo muito estranho.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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