Morrer e outros fatos [Raul Drewnick]

Posted on 20/12/2015

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Raul Drewnick*

Morrer é um desses acontecimentos que só podemos gozar no fim da vida.

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Quando o viu pendurado, seu cachorro pensou que fosse só uma brincadeira nova e começou a puxá-lo alegremente pela perna.

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Pensar que certa manhã ele chamou de meu sol essa mulher que ontem escancarou rispidamente a porta e lhe ordenou: “Sai!” Pensar que ela não se comoveu com as lágrimas dele e o empurrou: “Sai!” Pensar que, ao ser assim enxotado para a rua sob um convicto meio-dia, ele pôde fazer mais uma vez a comparação e, embora inutilmente, dizer à mulher, que já batia a porta: “Meu sol!”

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Se um poeta oferecer mais que a beleza, talvez convenha acreditar. Alguns poetas já conseguiram.

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Ter um gato no sofá só não é melhor do que ter um gato no colo.

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Nunca se sabe direito se o acento circunflexo está pousando ou se acabou de levantar voo.

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A vida vai mudando nossas opiniões. Algumas obrigações, como a de morrer, acabam se tornando hipóteses aceitáveis – e até agradáveis.

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Os gatos só não assumem o poder porque não nos acham suficientemente dignos de ser seus súditos.

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Que a vida seja uma referência para a arte, não uma diretriz.

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O escritor pôs uma interrogação no fim da frase. Depois, pensou melhor e colocou a segunda, e a terceira. As três se olharam, intrigadas. A mais experiente delas comentou: “Acho que estamos num texto de filosofia.”

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Ele a chamava de minha vida – e morreu achando-se inepto na arte de fazer elogios.

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Geralmente, os chamados exemplos de vida nos provocam mais bocejos do que a vontade de segui-los.

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A glória literária é uma cortesã que te nega hoje o que te recusará amanhã.

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Morrer por amor é algo que se deve fazer logo, imediatamente, enquanto ele merece ser chamado por esse nome.

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Palavras como beleza, quando requisitadas por um poeta, deveriam vir trazidas por um passarinho de alta hierarquia, como um beija-flor.

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Chutado pela namorada, passou a dizer horrores sobre ela. Que afogava gatos, por exemplo, em água fervente.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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