Ensaio de adeus [Mariana Ianelli]

Posted on 19/12/2015

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Mariana Ianelli*

Não valem só para etapas terminais, valem também por razões lúdicas os exercícios de adeus, que podem não ser duráveis, como igualmente não são, por mais eficazes, as medidas de limpeza, que não há banho nem despedida neste mundo que nos limpem por muito tempo, mas, ainda assim, considerando o mês, o grau de cansaço, a crosta de sujeira e o clima de iminente desfecho, vem a propósito um ensaio de despedida, uma prévia de ausência, ao modo de uma saudação às coisas e às emoções acontecidas, boas e más, sem distinção, às boas como para afagá-las uma vez mais, às más para libertá-las dos rincões do ressentimento, assim mesmo, sem distinção, aos bons e aos maus, até haver cada vez menos afetos de que se despedir, embora sempre os haja para uma alma enquanto nela houver vida, vem a propósito pelo simples exercício, pelo ensaio, um pouco patético sem dúvida, mas também um pouco pândega, prazer imaginário, temporário desapego, dizer adeus, rosa da paixão, manhã com pássaros, adeus, adeus prato com frutas, barcos nos portos, veludo das tintas, adeus menina de tranças, catedral ortodoxa, luz através das cortinas, adeus grandiloquência das nossas guerras de princípios, aos campos e ao perdão com que depois das refregas reflorescem, à gata preta de olhos verdes que pressente nosso amor natural ao primeiro desenrolar dos ritos, às auroras e à dificuldade de alçar à visão delas, aos nomes remotos que ainda teimam em renascer, Abel, Cecília, Cassiopeia, adeus às muitas vidas que vivemos antes desta, e que aparentam ser de outrem, ou então de mais ninguém, e às pegadas nas praias, aos degraus de pedras gastas, corrimões de madeira corroída, adeus às cartas manuscritas, aos postais velhos guardados, enfeixados com uma fita, aos namorados que desamaram e aos que nem chegaram a acontecer, aos colegas e familiares voluntariamente desaparecidos e aos perdidos de vista por um lapso, uma palavra a mais ou a menos, uma esquina, aos pesadelos com pântanos, abismos, casas abandonadas, aos nossos fantasmas, nosferatus, carrascos, terroristas, adeus, adeus aos amigos epistolares, aos infantes defuntos e aos amores de outras eras, mestres de outros séculos, homens e mulheres que ainda há pouco penetravam nosso pensamento com seus feitos, suas obras, seus poemas, cantores dos mares e das estrelas, cantores das ilhas e dos campos, cantores das tristes cidades, e aos que definitivamente não gostam de poesia, adeus.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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