Ser feliz é… [Madô Martins]

Posted on 18/12/2015

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Madô Martins*

Quando o filho era bebê, seu álbum de fotografias tinha na capa o desenho de um caçador de estrelas, percorrendo o céu com o mesmo puçá que os caçadores de borboletas. Nos últimos tempos estou me sentindo meio assim, só que a colecionar alegrias. Meu céu voltou a ficar de brigadeiro e, por andar com o coração desarmado, recolho pequenas e grandes satisfações ao redor, tornando os dias felizes.

Pensando naqueles antigos adesivos com definições sobre o ato de amar, constato que ser feliz é possível e fácil, agora que as nuvens se foram e o espírito serenou. Basta deixar-me tocar por prazeres simples e sinceros.

Ser feliz é… receber a ligação de uma amiga que me conta que lembra de mim, sempre que vê uma borboleta. Ser feliz é…  surpreender-me com a mensagem de um primo distante, revelando que desde a infância me carrega no coração.

Ser feliz é… enfrentar o comércio superlotado só para surpreender os entes queridos com presentes de Natal. E, estando bem, ser bem tratada pelos vendedores e cumprir todas as etapas, sem canseiras desnecessárias.

Ser feliz é… retomar projetos. Voltei à canoagem, na última aula do ano, mas o compromisso já está selado, em janeiro assumo outra vez o remo, com luvas e boné, apetrechos que sempre detestei… Voltarei também à hikebana: a professora telefonou, convidando-me para as aulas de 2016. E escrevo, escrevo, escrevo, como se um grande rio represado tornasse a correr.

Ser feliz é… acolher novos saberes. Numa videoconferência sobre meditação, aprendi que, para Deus, não somos mulher ou homem nem temos passado, porque eternos: Ele nos vê apenas como essência, aquela que perdura por vidas seguidas e jamais se perde em consequência de influências externas. E é como esta essência, naturalmente alegre, pura, amorosa, saudável, enfim, que devemos estabelecer contato com Ele, para que a comunicação se faça plenamente. Uma vez libertos da casca e seus acessórios, somos o melhor de nós mesmos, estamos acima das pequenezas humanas, abrimos a mente e o coração e tudo se faz luz.

Ser feliz é… espalhar luz à nossa volta. Importar para o outro, trocar quereres. A vida vem me presenteando com afeto e só me cabe retribuir. Nesta época danada de nostálgica, consigo até mesmo chorar de emoção, ao sentir saudade da mana falecida ou assistir ao coral de Heliópolis, formado por crianças descontraídas e talentosas da maior favela de São Paulo.

Ser feliz é… acreditar no futuro, esquecer o que não vale a pena lembrar, ignorar provocações, conhecer o próprio lugar, encontrar a própria turma. Fazer as pazes com a própria essência e falar com Deus.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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