Guilherme Tauil, provisoriamente jovem

Posted on 16/12/2015

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(Imagem: Bernardo Ceccantini) 

Muita coisa cabe sob o nome de crônica, mas existe um jeito de escrever o gênero que bem pode ser chamado de clássico. Isto é, aquele texto leve, em geral bem humorado, com ar de conversa em mesa de bar, por vezes com imagens poéticas e que aborda temas aparentemente banais do cotidiano. A receita, embora conhecida, não é de fácil execução, e não raro ocorre de um cronista perder a mão, seja pela exagerada pretensão de seu texto ou pela falta de universalidade em suas observações. Entretanto, é de se imaginar que um cronista se aproxime do estilo clássico à medida que tenha contato com quem já escrevia dessa maneira antes dele. Isso pode parecer óbvio, mas hoje em dia já é possível se tornar cronista sem nunca ter lido Rubem Braga. Não é o caso de Guilherme Tauil, o provisoriamente jovem Guilherme Tauil, desde muito cedo interessado nos grandes mestres da crônica. O resultado é que, ao escrever os seus próprios textos, ele se aproxima da crônica feita à moda antiga – que, afinal, ainda é a responsável pela popularidade do gênero.

Não é à toa que “Sobreviventes do verão” (Zepelim, 2015), seu primeiro livro de crônicas, esteja sendo recomendado por nomes como Humberto Werneck, Ivan Angelo e Luís Henrique Pellanda, três dos melhores cronistas em atividade no país. Do alto dos seus 22 anos, Tauil deixa claro, em seus textos, a tradição da crônica a que se filia. E o surgimento de um cronista como ele evidencia o vigor do gênero e seu alcance em meio às novas gerações.

Como todo cronista que se preze, Tauil é abelhudo e precisa de rua, de convivência. Tem especial predileção pelas praças e gosta de flanar à toa. Está atento ao que acontece ao seu redor e, se preciso for, irá seguir o próprio avô para ver se disso não resulta um mote para o seu texto. Está interessado naqueles fatos bestas que nos marcam profundamente, nos desacontecimentos, miudezas injustiçadas que não constam em biografias – ou seja, exatamente o tipo de tema que faz o sucesso da crônica.

Vai falar, portanto, do pombo que viu em um bebedouro, da lagartixa que viu no teto, do verso que descobriu em Chico Buarque, do pênalti que perdeu quando ainda era criança. Irá reparar nos outros, em porteiros que se sentem Napoleão, em sujeitos que falam gritando, em tipos que selecionam superstições para acreditar, mas a crônica, a boa crônica, também exige a imolação do seu autor. Assim é que Tauil assume, por exemplo, que suas mãos suam mais do que deveriam, ou que já ficou limpando as lentes dos óculos só para disfarçar uma solidão. Essas sinceridades, em geral, conquistam os leitores, que não esperam encontrar na crônica algum super-herói.

Ele também se preocupa com o que não tem resposta, mas sabe que a sala de aula não convém à crônica, de modo que se limita a levantar teorias assumidamente triviais, e que levam a conclusões geralmente divertidas, mas vai saber se não é assim mesmo que os cronistas chegam a algumas verdades fundamentais do nosso cotidiano. Fala ainda sobre o sossego dos momentos vazios e, no auge da sua poesia, descreve uma mulher maquiada. Firma uma geografia particular, a partir de suas experiências como interiorano na cidade grande. Brinca com as palavras, não dispensa as histórias, lança um olhar ao noticiário e dialoga com o leitor. Faz, enfim, tudo o que a gente sempre imagina que um bom cronista faça.

E o melhor é que Guilherme Tauil ainda não é o cronista que pode ser – é “um cronista a caminho”, nas palavras de Ivan Angelo. Parece estar na direção certa.

Henrique Fendrich

Capa Sobreviventes do verão

Sobreviventes do verão – Guilherme Tauil

Zepelim, 2015, 144 p. 

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