A Casa Torta [Daniel Cariello]

Posted on 10/12/2015

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Daniel Cariello*

Tio Dédalo chegou mais uma vez voando pela janela, que vivia aberta pra aliviar o calor inclemente da Casa Torta. “Mas esse rapaz não aprende nunca? Um dia ainda se esborracha”, resmungou a avó, Dona Florinda. “Basta a fenestra estar fechada e ele se arrebenta inteiro. Por que não entra pela porta ou pela chaminé, como todo mundo?”.

Sob ovações das crianças, cambalhotou antes de aterrissar. Sentou-se no sofá aparafusado ao solo e deu ao caçula Nino uma piscada de olho e um pote cheio de fumaça.

– Pra você! Vai gostar.

O pequeno se colou ao regalo e saiu gritando pela Casa.

– Pai, pai! O tio trouxe um pedaço de nuvem só pra mim! Já posso criar minhas próprias chuvas e tempestades!

– Isso é ótimo. Mas, ó, não faça nevar na sala, sua mãe morre de frio, respondeu, afagando o menino e retornando ao subsolo, onde se empenhava em um projeto secreto. O fracasso do anterior, o lava-cachorro, continuava a perturbá-lo. E mais ainda o labrador Speed, que nunca se recuperou do banho a 200 r.p.m..

Nino voltou correndo à sala e ainda conseguiu acenar para Dédalo, que já decolava novamente. O petiz também não parou ali. Pegou os gêmeos pelas mãos e os levou a seu quarto.

Como sempre, o tio voador trouxera presentes a todos os sobrinhos. Lua ganhou uma flor, um enorme dente-de-leão, coberto por uma cúpula de vidro: “É pra soprá-la quando todo mundo estiver triste”. Peri tirou do bolso um objeto protegido por um lenço de tecido. Pediu para fecharem as cortinas e apagarem a luz. No escuro, revelou uma pedra azul perfeitamente redonda e tão brilhante que transformou em dia o breu do quarto. Jamais deveria se separar dela. E nunca, nunca mesmo, utilizá-la sem verdadeira necessidade.

O relógio de parede tocou cinco badaladas. No momento em que deveria haver uma sexta, ouviu-se um baque seco. As crianças abriram a porta e viram a avó estatelada no chão. Sentaram-se ao lado e a aguardaram se levantar, alisar o vestido com as mãos e continuar a subida pela estreita escada que levava ao quartinho do 3º andar. Speed foi atrás, escorregando e voltando um degrau a cada dois vencidos.

– Ele quer me matar. O pai de vocês me colocou lá em cima de propósito, sabe que eu não tenho mais o equilíbrio de outrora. Não vai com a minha cara porque eu não gosto dessas baldrocas que ele passa o tempo todo maquinando. Se o avô de vocês não tivesse desaparecido, tudo seria diferente por aqui. Se ao menos eu soubesse por onde você anda, Floriano, se você pudesse nos…

O fio de voz sumia à medida que ela suplantava os níveis. E foi definitivamente abafado pelo ganido solto pelo cachorro ao ter seu rabo imprensado pela porta. Dona Florinda bufou, enxotou o animal e deu quatro voltas na chave.

Na manhã seguinte, a Casa Torta amanheceu calada. Na mesa do café, as bocas falavam mudez. Os pássaros pousavam à janela e piavam o silêncio. A avó e suas reclamações ainda descansavam das queixas da véspera, e não haviam descido para o desjejum.

– “A velha deve estar dormindo, aquela encostada”, pensou o pai.

– “Deixa de implicância. A pobre tomou conta de mim a vida inteira, agora eu cuido dela.”, respondeu a mãe, por telepatia, um novo dom no repertório dos Monteiro.

– “Vocês dois! Parem essa discussão eterna. Vamos acordá-la. Hoje é dia de feira e a vó não perde. Acho que paquera o floricultor.”, decretou Nino.

A família subiu as escadas. Nino puxou a fila, seguido do pai, da mãe, dos gêmeos e de Speed, que ia de maneira invertida, as patas traseiras primeiro. Bateram sem resposta. Tentaram novamente e nada. O pai trouxe do subsolo o pesado baú com todas as chaves que possuíra: do castelo de brinquedo da infância, da garçonnière dos anos de solteiro, do laboratório de mecânica da vida adulta, todas. Testou uma por uma, pacientemente, sem sucesso.

– “Aposto que a coroa escondeu a chave reserva!”, esbravejou mentalmente.

– “Chega de pegar no pé dela”, defendeu a mãe. “Vamos chamar o Dédalo”.

Nesse instante, o tio entrou pela janela do corredor, as mãos na frente, como se mergulhasse de cabeça em uma piscina. Todos aplaudiram de maneira breve e contida, pois a situação era delicada.

Ele logo percebeu o acontecido. Saiu para examinar a janela de Dona Florinda. Estava fechada. Escancarou-a com um golpe. O quarto continuava imerso em escuridão, a luz externa clareando apenas a chave repousada na fechadura. Girou-a e deixou a família tomar o aposento. As trevas permaneciam tão indevassáveis quanto o silêncio.

Peri sacou do bolso o lenço onde escondera a pedra azul. Descobriu-a e preencheu o cômodo com uma luz arrebatadora, vista até pelo floricultor, que trabalha contemplando a colina da Casa Torta.

O brilho revelou a velha. Estava imóvel, dois palmos acima da cama, na mesma posição em que foram encontradas a sua mãe, a mãe da sua mãe e a mãe da mãe de sua mãe. Nino abriu seu pote e deixou sair a nuvem, que transportou a avó pela janela. Lua retirou a cúpula e soprou o dente-de-leão. As pétalas, multiplicadas aos milhões, levaram toda a família pelos céus, para acompanhar o último voo de Dona Florinda. Bem ao longe, percebia-se uma doce melodia barroca.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras.

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