Graciliano e o vírus

Posted on 08/12/2015

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Em meados de 1952, pouco antes de morrer, Graciliano Ramos fez uma viagem à antiga União Soviética, mais precisamente à Rússia e à Geórgia. E fez a viagem à convite do Partido Comunista Brasileiro, do qual fazia parte, embora manifestasse certa independência de pensamento. Assim é que as crônicas que escreveu a respeito dessa visita, reunidas postumamente sob o título de “Viagem” (Record, 2008), não constituem uma propaganda laudatória do sistema de governo daqueles países. Graciliano já havia saído do Brasil pensando em escapar das doses de morfina aplicáveis ao estrangeiro. E, embora simpatizasse com muita coisa do que via, não deixou de causar embaraço com as dúvidas e questionamentos que fazia diante dos discursos oficiais que ouvia.

Na URSS, Graciliano mostrava interesse, sobretudo, pelo pensamento das figuras anônimas. Por vezes flanava sozinho pela cidade, experimentando a curiosa sensação de ter se tornado surdo, vagando a procura de algum personagem de Tolstoi. O escritor, no entanto, também faz relatos pormenorizados dos lugares que visita, citando eventos e datas na medida em que permeia o texto com impressões pessoais de notável senso de humor. E Graciliano teve mesmo experiências singulares por lá, como a de observar Stálin durante um evento de comemoração dos trabalhadores. Também viu o corpo de Lênin, embora achasse muito curiosa aquele tipo de peregrinação.

Na verdade, Graciliano tinha dificuldade em aceitar o culto à personalidade em terras soviéticas, julgando ser algo impossível para os latinos. Mas não foram estas as maiores diferenças que o escritor encontrou em relação ao seu próprio país. O incrível índice de leitura dos trabalhadores da Geórgia, onde regurgitavam teatros e multiplicavam-se escolas, por exemplo, o fez lembrar-se dos analfabetos brasileiros.

Havia na época a ideia de que quem fosse para os países da cortina de ferro seria contaminado pelo vírus do socialismo. Ao encontrar uma realidade social que, sob vários aspectos, se mostrava superior à existente no Brasil, Graciliano observou com ironia: “Se respirarmos isso aqui acabaremos doentes, julgaremos razoável uma cidade isenta de mendigos e prostitutas”. E à medida que reflete sobre nossas tão prezadas individualidades, o escritor pondera:

“Embora vivamos do nosso trabalho, fomos criados na reverência aos tipos hábeis que vivem do trabalho dos outros. E admiramos haverem-se apagado aqui as divergências (…). Achamos vantagem nas discrepâncias, receamos tornar-nos rebanho. E nem vemos que somos um rebanho heterogêneo, medíocre, dócil ao proprietário. Queremos guardar o privilégio imbecil de não nos assemelharmos ao vizinho. Enfraquecendo-nos, julgamo-nos fortes. Realmente, somos bestas”.

Por outro lado, também Graciliano e os brasileiros que o acompanhavam chamavam a atenção de moradores locais, pasmados por não serem eles os selvagens que supunham. O curioso é que, mesmo com meios diversos, hábitos diversos, divergências constrangedoras, sociedades antagônicas, separados por distâncias imensas, externas e internas, aqueles soviéticos se avizinhavam de criaturas tão diversas como elas. Um incidente que tocou particularmente a Graciliano foi a da menininha que se aproximou dele e, com curiosidade, pegou o seu caderno de anotações, desejosa de entender e se comunicar.

Apesar dessas aproximações, Graciliano achava que a sua própria literatura de nada serviria em países como aqueles. Considerava que, ali, seus textos não passavam de coisas miúdas, casos vagos de uma região quase deserta. Igualmente, não conseguiria ler os livros da Geórgia que lhe entregavam.

É engraçado que, tendo a oportunidade constatar in loco tudo aquilo que se dizia respeito do socialismo na Rússia, descobrindo coisas que não imaginava, como o “repouso forçado”, Graciliano não tenha conseguido convencer muitas das pessoas que ficaram no Brasil. Ao contrário, teve que ouvir delas que tudo o que considerou digno de elogios durante a sua viagem foi o resultado de uma complicada encenação com objetivos propagandísticos. E então, essas pessoas, que nunca haviam estado na URSS, pacientemente passaram a explicar a Graciliano como era a URSS de verdade. Com isso mostraram não apenas duvidar da capacidade de discernimento do escritor, mas também evidenciaram a sua idealização de um mundo sem contradições, em que o certo e o errado são facilmente distinguíveis. E isto, infelizmente, sobrevive à Guerra Fria.

Henrique Fendrich 

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