Sapatos [Madô Martins]

Posted on 04/12/2015

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Madô Martins*

Sapatos sempre me atraíram a atenção. Minha mãe contava que, por volta dos 3 anos, já escolhia na vitrine o que queria calçar. E, quando me elogiava dizendo “papato nofo, hein?”, eu logo reclamava: “fala direito, mãe!”, revelando o espírito crítico que me habita até hoje.

Ainda estagiária na redação do primeiro jornal onde trabalhei, ficava intrigada com as fotos de sapatos abandonados, quando algum grande desastre era noticiado, como choque entre trens, incêndio em casa noturna, briga de torcidas no estádio, ataque de franco-atirador etc. Ali estavam dados preciosos: o pânico, a quantidade de pessoas envolvidas, sua idade e condição social. Comentei o fato com os colegas e, desde então, nenhum deles passou olhos distraídos sobre aquelas imagens.

Recentemente, outra foto com calçados me interrompeu a leitura. Estava em vários jornais, nas redes sociais, nas revistas, sempre com legendas carregadas de admiração. Era o protesto dos franceses, na Praça da República de Paris: proibidos de realizar passeata de contestação  ao Encontro sobre o Clima, que reúne representantes de quase 200 países para discutir o aquecimento global, lotaram a praça de sapatos.

Questiono tanto a manifestação em si quanto a postura de deslumbramento de nossa mídia, diante do fato. Ação desse tipo jamais seria coerente aqui, onde tantos não têm o que calçar, vestir, comer… Eram pares em perfeita condição de uso, e que poderiam até beneficiar homeless franceses, refugiados ou vítimas da crise econômica vivida pela Europa. Ou será que eles não existem por lá?

Que enchessem a praça de sapatos desenhados ou feitos de papier maché, mas abandonar centenas de pares numa época crítica como a que vivemos em todo mundo é, no mínimo, uma posição própria de burgueses alienados, empenhados em dar mais um show para as câmeras dos celulares, veículo preferido das celebridades anônimas. Maria Antonieta terá ressuscitado?

Mas a mídia é descolada, e parece ter horror a análises um pouco mais profundas sobre o que estão se tornando as sociedades contemporâneas. Sensibilidade, compaixão, uso consciente dos bens de toda espécie são propostas fora de moda. Impactantes são as guerras de tomate e as corridas de touros nas ruas, os protestos de agricultores que inutilizam toneladas de alimentos porque o preço de mercado não alcançou o esperado, o desmatamento das florestas, o vazamento de óleo em mares e rios, a caça de animais em extinção… Afinal, notícias assim sempre rendem boas fotos. Se tiverem sapatos, então…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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