Mengão à meia-luz [Daniel Cariello]

Posted on 04/12/2015

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Daniel Cariello*

Outro dia, inventei de arrumar o armário ao lado da porta de entrada. De organizar tudo que ali estava entulhado: papéis, notas fiscais, chaves, clipes, pilhas novas e velhas, DVDs, guarda-chuvas, revistas antigas, cartões de 2 bombeiros hidráulicos, 3 chaveiros, 4 eletricistas, 2 especialistas em gás e de uma loja de suprimentos agrícolas, que nem imagino foi parar ali. No meio das tralhas, escondidos lá no fundo, havia 5 benjamins, aquele aparelho em forma de T de onde saem 3 tomadas, e 6 extensões elétricas. Seis!

Faço aqui uma confissão: tenho certa fixação por extensões elétricas. Sempre que vou a uma loja onde tem de tudo dou uma paradinha na seção das extensões, pra checar se tem novidade na área, mesmo que o setor não tenha visto muitas evoluções nos últimos, digamos, 50 anos.

Essa obsessão vem possivelmente do tempo em que minha banda de rock da adolescência ensaiava lá em casa e precisávamos ligar quatro amplificadores, uma mesa de som, um teclado e um gravador de fita cassete na única tomada disponível. Fazíamos uma gambiarra de dar inveja à rede de energia carioca, juntando extensões, anexando benjamins e plugando tudo até formar algo parecido com uma instalação, não elétrica, mas de arte contemporânea. Aquilo tinha tudo pra dar ruim, porém incrivelmente nunca deu, pra tristeza dos vizinhos que nos aguentavam transformar nossos hormônios pubescentes em algo parecido com música, nas tardes de sábado.

Mas então eu encontrei todos esses benjamins e extensões e, apesar de surpreso com a quantidade, arrumei uma caixa e guardei-os bem guardados, pois um dia poderiam ser úteis. E foram, antes do que poderia imaginar.

Naquela noite, a chuva forte fez cair a luz de metade da minha casa. Um desses fatos inexplicáveis do Rio de Janeiro que, no entanto, não choca os cariocas nativos. A cozinha, a área de serviço e um banheiro tinham energia. A sala, os quartos e o outro banheiro, não. Comentei com vizinhos e amigos e tudo o que diziam era “fica tranquilo, logo volta ao normal”. Ficaria tranquilo, caso não houvesse um jogo decisivo do Flamengo em 15 minutos.

Aí me lembrei das extensões. Peguei todas e montei uma gambiarra digna do Daniel adolescente. Saía da cozinha, entrava pela sala e passava por detrás da estante, onde incluí um benjamim para religar o aparelho de som, caso quisesse escutar uma musiquinha no intervalo. A fiação seguia inabalável seu rumo até o quarto de TV, passando pelo sofá, duas poltronas e uma mesa de centro. Chegou à porta do cômodo, mas não até o aparelho (se eu tivesse mais uma extensão…), que fui obrigado a empurrar até que os fios se alcançassem.

Liguei e tudo funcionou às mil maravilhas. O jogo havia acabado de começar. Pra comemorar o êxito da empreitada, fui buscar uma cerveja na geladeira. O Flamengo levou um gol. Puto da vida, levantei novamente, pra pegar amendoim. O rubro-negro encaçapou o segundo. Puxei aquela cobra de fios da tomada e fui dormir. Não era só a casa que estava às escuras.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras e excepcionalmente nesta 6ª feira.

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