Vitrine viva [Elyandria Silva]

Posted on 03/12/2015

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Elyandria Silva*

Parece que ele nunca cansa, não conhece o tempo, está acima de qualquer passante, turista ou morador do lugar, de todos que param e ficam admirando-o, tirando fotografias, encarando, torcendo para piscar e demonstrar que é humano, querendo mexer por espanto. Além do tempo, em que se autopetrificam para abandonarem a difícil saga de serem homens comuns, o que mais me fascina naqueles manequins vivos é o desafio de se tornarem homens dourados ou prateados, por horas a fio. A tinta que cobre o corpo, as roupas, o olhar que abraça o infinito, que desafia um céu, de libras, o mesmo céu que também só pisca quando chove.

Lá em Assis, na Itália, terra de São Francisco de Assis, que abandonou uma vida de riqueza para fazer a caridade, indo para a igreja, onde uma tumba guardava os restos mortais do santo, encontrei um homem dourado, vestido de peregrino. Uma estátua vivente, como dizia numa placa abaixo de seus pés. Era de uma ternura tão celeste quanto as lembranças da vida do homem bom que lá viveu, assim como a amiga e alma gêmea do santo, a Santa Clara. Avançava caminhando pela rua de pedra observando as construções medievais na Capital Mundial da Paz, em meio a muitos outros turistas, quando o avistei. Nos pés um cesto para os euros da admiração pelo seu trabalho. Coloquei uma moeda e tirei a foto. No final, em agradecimento, recebi um pequeno papel com uma mensagem “Quando Tu dai Il Tuo cuore agli altri, Dio dà Il Suo cuore a Te”, que significa “Quando você dá o seu coração aos outros Deus dá o seu coração para você”. Em tempos que os homens estão sem um aquele parecia ser um homem com um belo coração.

Uma vez, criança, quando parava para observar os manequins das vitrines, pensava que aquelas estátuas tinham história. Observava-os, fixando no olhar, na esperança de que piscassem e a tese mágica de que ganham vida em certos momentos se concretizasse. Nada. Permaneciam sempre na mesma pose, naqueles belezas tão perfeitas que ninguém mais dava atenção. Desejei ser igual. E fui. A vida por trás do vidro, com todos lá fora olhando. Naquela época fazia vários trabalhos almejando ganhar o suficiente para pagar a mensalidade da faculdade. Um desses trabalhos era ser Vitrine Viva, através de uma agência de modelos. A função era vestir a roupa de alguma loja e ficar na vitrine, por cerca de uma hora e meia, no sábado de manhã, como um manequim, sem se mexer. Com mais dois colegas, num determinado sábado, vestindo pijamas, atraímos toda a atenção lotando a rua em frente à loja. Dezenas de pessoas paravam para admirar os manequins de carne e osso. De mão pegada com a mãe o pequeno menino começou a chorar, assustado, na hora que mexi os olhos e pisquei na direção dele. Ficou ali a mãe, tentando consolá-lo, sem entender o porque da gritaria.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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