Confiança [Ana Laura Nahas]

Posted on 02/12/2015

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Ana Laura Nahas*

O que te faz confiar em alguém? Sorriso na cara, olhar de verdade, histórico na escola, nada consta no cartório? O que te faz emprestar o carro, pedir o impedível, arrumar um pouco de dinheiro sem prazo para receber de volta, contar daquele amor que ninguém sabe, daquela saudade que você faz de conta que não sente mais, daquela novidade que precisa esperar uma semana inteira antes de virar conversa? Quatro anos de convivência, um abraço que te envolve inteiro, a lembrança daquela noite em que você ligou às três da manhã para chorar pitangas? O que te faz confiar em alguém?

Confiança vem do latim con fides, com fé, aquela mesma, na Física, na metafísica, nas canções, no tempo, nos encontros, no braço, aquilo tudo. É uma palavra e tanto, que pode significar um bocado de coisas. Resume a crença na probidade moral, na sinceridade afetiva, nas qualidades profissionais, na promessa de dias melhores, nas palavras daquela noite em que feridas e angústias pareceram bem menores do que antes.

É, de fato, uma palavra e tanto, que pode significar um bocado de coisas. Traduz a promessa de dias melhores, não seu oposto, desacreditar, pensar que não vai dar, esperar que cedo ou tarde a casa desabe ou o amor acabe. Demonstra crédito, disposição incondicional, convicção nas mudanças, não seu oposto.

Confiar, alguém já disse, com toda razão, é um exercício dinâmico de coragem.

[Porque coragem – o próprio nome diz – é pôr o coração na ação, andar, correr ou voar impulsionados – olha ela de novo – pela confiança].

Confiar depende mais da poesia que da lógica, mais dos afetos que das probabilidades, mais do espírito que do cérebro. É uma palavra e tanto, dizer sim às cegas numa terça-feira qualquer, mergulhar com tudo numa história sem garantias de final feliz, é perdoar até os maiores deslizes, até o orgulho, até o ciúme, até um escorregão doído, até o silêncio que não devia ser silêncio, até as faltas sem justificativa decente.

Confiar remete às expectativas concretizadas, não ao seu oposto – o telefone que não toca, o aumento de salário que não vem, a dieta que não funciona, o amor que não vinga, os laços e nós que a gente constrói sem saber se vão ter finais felizes.

Confiar é sorrir só de olhar, sem histórico da escola, sem nada consta do cartório, sem fiança, penhor ou caução. É abrir a vida inteira numa conversa, entregar o joelho para o médico na sala de cirurgia, emprestar o filho para passear com a tia, dormir na estrada enquanto o outro dirige. É acreditar nas palavras todas e até nas pausas, contar de um amor que ninguém sabe, da saudade que você faz de conta que não sente mais, da novidade que precisa esperar uma semana inteira antes de virar conversa.

Confiar remete à leveza, não ao seu oposto, e depende mais do abstrato que do concreto, mais do cheiro que da matemática, mais da imaginação que do saber. Vem de ter fé, aquela mesma, sem explicação, sem razão, sem hesitação, simplesmente porque sim e pronto, por mais difícil que às vezes seja.

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* Ana Laura Nahas é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com 15 anos de experiência em jornais, revistas, rádio e internet. Escreve crônicas desde 2002. Seu primeiro livro, “Todo Sentimento”, já esgotado, foi lançado em 2008. Recentemente lançou “Quase um segundo”. Também mantém um blog, http://www.analauranahas.wordpress.com. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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